Decepcionista

Para a padeira de palavras gentis 🙂

Infelizmente, fui criada para agradar.

Talvez por isso, explicar certas partidas sob uma ótica diferente da decepção, ainda soe impossível para os meus ombros curvados pelo peso de ser útil.

O que falar então da culpa por estar feliz, fazendo exatamente o contrário do que se espera de mim?

Lembro do dia em que decidi fazer História. Era a última aula de mais um semestre que quebrava a promessa de ser o último. A nova perspectiva se construía a partir daquele fim, desenhado como o início de uma possível rebeldia. Fazer algo pelo simples prazer de dizer “eu quero!”.

Porém, a ousadia ainda se encontrava nos moldes de um segredo. Os sinais eram apenas a presença em espaços que ainda não me pertenciam. O sentimento de invasão escancarava a certeza e o desejo de que o tempo corresse mais rápido para então, finalmente fazer parte. Os julgamentos eu deixaria para lidar mais tarde.

Talvez soe até contraditório para alguém que tinha acabado de decidir estudar o passado, mas na construção do futuro que eu tanto ansiava, o que mais importava era o (meu) presente (individual). Antes de mais nada, eu precisava finalizar o que já tinha começado. E desistir, àquele ponto, não era uma opção (nunca foi).

E assim o fiz.

Somente na iminência do fim decidi comunicar o inevitável: eu iria me formar, mas minha “pós-graduação” seria outra graduação. Ficou para mainha a missão de espalhar aos quatro cantos do mundo.

Como era de se esperar, os julgamentos vieram aos montes. Críticas disfarçadas de “tu é corajosa” inundaram os meus ouvidos. E, o mais cruel de todos, foi o decreto de “perda de tempo”, fazer um mestrado era “muito mais inteligente”, “depois que já estivesse encaminhada, mudava de área”.

Acho que foi um dos primeiros momentos em que me deixei ser decepcionante.

Os próximos vieram a galope. Aos montes. Sem remorso. Só o desejo de não ser expectativa.

E talvez deixar de ser útil tenha sido o meu mais libertador, embora mais dolorido, ato de “decepcionista”. Foi quando a ausência marcou presença e as certezas gritaram inaudíveis.

Mas as palavras gentis são claras e consistentes, como o pão de quem as transmitem:

— Seja livre, minha querida!

Sobre a autora:

Shirley Pinheiro

Graduada em Letras pela Universidade Regional do Cariri.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *