Eu não odeio as mulheres

Experimentava mais um café superfaturado e me deliciava com uma enorme fatia de bolo, enquanto esticava os ouvidos procurando entretenimento nas mesas ao lado, e achei. Me divertia pensando que todo observador, na verdade, é um grande curioso, para não dizer intrometido. A humanidade não nos surpreende, ela é mais previsível que as mudanças meteorológicas.

Como o som de um bumbo, ainda ressoa em minha consciência o diálogo que flagrei entre um homem e uma mulher. Lá pela metade da conversa, surgiu a questão:

— Por que você odeia tanto as mulheres?

Eu já fazia parte da cena, era uma curiosa espectadora daquele momento comovente. Talvez, se ele não fizesse essa pergunta, eu teria parado ao lado dela para questioná-la.  Afinal, enquanto me aquecia com a xícara em mãos, também rasgava meus ouvidos, renovando meu repertório de exemplos sobre ódio às mulheres.

Curiosa, sim. Afinal, não é todo dia que encontramos um homem capaz de perceber a misoginia nas conversas protocolares da vida cotidiana.  Olhei pelo canto dos olhos e percebi a surpresa de quem recebeu a pergunta. Adianto: essa expressão foi mais engraçada do que a resposta.

Claro que não há uma elaboradíssima explanação que preencha os requisitos necessários de uma justificativa humanamente correta. Certamente, seriam poucas palavras e tão sem cabimento quando os argumentos levantados enquanto conversavam.

— Eu não odeio as mulheres.

Apenas vinte letras. Eu sabia que não seriam muitas. No entanto, com elas, outras foram necessárias.  Então, ela continuou:

— As mulheres precisam entender que independente do que os homens façam, há uma conduta que precisa ser respeitada, como os cuidados necessários para a manutenção da família e, especialmente, com o homem. Além disso, elas precisam respeitar as necessidades masculinas.

Levantei-me e não quis escutar o restante da conversa. Tateei as paredes até a saída, sentindo-me mal com aquela resposta. Por um momento, tentei achar graça. A gente tenta rir para não chorar, mas aquela afirmação era tão terrível que, em nenhum cenário possível, poderia soar cômica.

Sentei-me, observando outras mulheres. Refleti sobre as violências que já sofri e sobre as muitas infligidas a tantas outras, mas que, talvez pelo meu privilégio, tenha passado impune. Questionei-me sobre quais violências aquela mulher havia sofrido. Que vida a teria levado a uma constatação tão desatinada?

Infelizmente, assim como ela, tantas outras acreditam nessa afirmação, de que precisam ser salvadoras de todos, menos delas mesmas ao se furtar da obrigação de tomar tamanha responsabilidade.

Nos culpam por assumirmos muitas tarefas, por lutarmos por igualdade e, com isso, acumularmos ainda mais obrigações. Nos culpam por querermos dignidade, por lutarmos da maneira “errada”, por não educarmos os homens na luta feminista ou por não os incluirmos. Sem esquecer da enorme problemática em torno de uma performance impossível de ser alcançada e exercida, mas socialmente exigida.

Mas me digam, caríssimas(os): quando reconhecerão a necessidade de mudança e ultrapassarão essa retórica infantil e mesquinha de apontar a culpa para alguém? Quando, de fato, entenderão que queremos apenas respeito e dignidade? Além de uma divisão justa nos trabalhos de cuidado, é claro.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *