Não assisti ao filme A Substância (2024) no cinema, pois até agora não chegou ao Cariri. A princípio, fiquei bastante chateada já que a película concorreu ao Oscar junto com Ainda Estou Aqui (2024), do diretor Walter Salles baseado no livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva.
Além disso, escutava amigos (as) tecendo comentários elogiosos sobre a narrativa fílmica da diretora francesa Coralie Fargeat: “diferente”, “impactante”, “insano”, “sombrio”, escatológico”, “forte”, “ousado” etc.
Sábado passado, Dina Melo (@dinacmelo), convidou-me junto com outras amigas, para assistir ao filme na casa dela. Uma espécie de “clube de cinema” regado a muito café e um longo debate.
Hoje agradeço por não ter conseguido ver o longa na grande tela. Não teria conseguido me sustentar sobre minhas pernas e retornar para casa, sem antes vomitar todos os sentimentos repulsivos que a narrativa estrelada por Demi Moore provocou em mim: repulsa, angústia, injustiça, dor, raiva, impotência, etc.
A Substância (2024) é uma obra que rejeita a sutileza e abraça o exótico, o contraste, o exagero, ao tratar de temas como o culto ao padrão de beleza e à fama, o controle dos corpos e o etarismo.
Começo a entender por que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas americana deu o Oscar de melhor atriz à Mikey Madison pela sua atuação em Anora (2024), uma comédia romântica digna da “Sessão da Tarde”, entre uma jovem stripper do Brooklym e o filho do chefe da oligarquia russa.
Fernanda Torres interpretava Eunice Paiva, esposa e mãe de cinco filhos do ex-deputado Rubens Paiva, que se tornou advogada e ativista dos Direitos Humanas e empreendeu uma árdua luta contra a ditadura militar no Brasil. Mikey Madison viveu uma profissional do sexo que se apaixonou por Vanya, um jovem alienado e inconsequente. Ao lado dele, ela sai da condição de gata borralheira e se torna a cinderela, por alguns instantes. Já em A Substância (2024), Demi Moore interpretou Elizabeth Sparkle, que no passado foi muito famosa, seu rosto podia ser visto nas principais revistas e outdoors do país, o que a levou ganhar uma estrela com seu nome na calçada da fama. Contudo, aos cinquentas anos, apresenta um programa de ginástica, é considerada velha, antiquada e inútil ao mercado televisivo, por isso, será substituída por uma atriz mais jovem, mais rentável ao mercado publicitário.
Entre uma esposa que busca o corpo do seu marido desaparecido e luta pelo fim da ditadura (Ainda Estou Aqui), e uma atriz de cinquenta anos que briga para se manter em frente às câmeras, logo, começa a usar uma droga, A Substância, que promete torná-la “melhor versão de si mesma”, ou seja, “Mais jovem. Mais bonita. Mais perfeita”, o Oscar foi dado a uma jovem que interpretou uma dançarina que se deslumbra por um homem rico que a abandona no primeiro instante que os pais dele não aprovam a relação.
Em Ainda Estou Aqui exalta-se a mulher viúva que não se cala diante das agruras de seu país. A Substância critica-se a pressão estética, o domínio dos corpos pela sociedade de consumo e a substituição do velho pelo novo, isto é, exatamente o que faz o universo hollywoodiano legitimado pelo Oscar. Em Anora, aplaude-se a mulher que precisa de um homem para encontrar o caminho da felicidade. Em uma sociedade patriarcalista e misógina, das três mensagens transmitida pela sétima arte, Anora, que no mês de janeiro perdeu as cinco categorias que disputou, saiu-se vencedor.
Falar da indústria cinematográfica, falar de premiação do Oscar, é falar de um universo machista, que ignora a diversidade racial, étnica e sexual. O objetivo principal é lucrar. Vale, pois, a hipersexualização, objetificação das mulheres, além de seus inúmeros sofrimentos psíquicos.
As tardes cinematográficas ao lado das amigas são importantes para entendermos de uma vez por todas: as “substâncias”, lícitas e ilícitas, das quais o mercado quer nos tornar reféns e dependentes é um convite ao vazio e à morte. As insatisfações femininas geram lucro para o mercado.
Obrigada a todas as mulheres que assistiram ao filme ao meu lado. Por mais tarde cinematográficas para nos aproximarmos uma das outras. Não são “as substâncias” vendidas nas lojas, clínicas estéticas e farmácias que nos proporcionam uma melhor versão. Ela é adquirida com a chegada da maturidade.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler