Simoa Maria da Conceição, mais conhecida como Preta Tia Simoa, foi a mulher negra que mudou o curso da história no Ceará enquanto protagonista do episódio radicalmente definidor da abolição da escravidão neste estado, a primeira greve de trabalhadores negros, registrado na historiografia como a primeira greve dos jangadeiros.
É importante frisar qeu a campanha abolicionista no Ceará contou com a participação feminina através da criação de sociedades de mulheres libertadoras. Como uma das mais atuantes, podemos citar a sociedade das Cearenses Libertadoras que foi criada em dezembro de 1882. No entanto, é possível estabelecer diferenças marcantes entre a atuação destas senhoras organizadas em associações e a participação de Simoa enquanto mulher preta também engajada na luta pela liberdade, diferenças que revelam as distintas visões de liberdade eu cada grupo racial carregava consigo.
A participação feminina foi de grande relevância na luta pelo fim da escravidão, sobretudo no final do século XIX quando essas mulheres demonstraram não estarem alheias aos problemas socioeconômicos de sua época decorrentes da manutenção do trabalho cativo e se organizaram na criação de sociedades, clubes e associações contra a escravidão.
Apesar de terem seus feitos registrados nos periódicos da época em que operaram, faz-se importante ressaltar que a atuação feminina na campanha abolicionista ocorreu em ligação direta com as ações masculinas, protagonizadas por homens que mais tarde se tornariam os grandes ícones da abolição. A forma “romântica” como estas mulheres eram retratadas nos jornais da época demonstram uma hierarquia estabelecida a partir da diferença de gênero que, no entanto, não descartava a importância política da inserção destas mulheres na campanha abolicionista.
Em uma sociedade tradicional, não apenas a distinção de gênero é crucial, mas também a de raça. Nos discursos dos jornais abolicionistas cearenses, a exemplo do jornal Libertador, podemos perceber que a participação de homens pretos era significativamente inferior à de mulheres da alta sociedade engajadas na luta pela “libertação” dos cativos. E se o registro do protagonismo preto era incompatível com sua atuação, o das mulheres pretas é absolutamente ausente.
O nome da Preta Tia Simoa não foi identificado em nenhum discurso sobre a campanha abolicionista do jornal Libertador, estabelecendo uma distinção crucial pautada na diferença racial entre esta mulher preta e as senhoras abolicionistas da Cearense Libertadora. A diferença entre elas pode ser traduzida através da ilustração que acompanha esta matéria, cuja autoria é de Descartes Gadelha.
Seu nome é Simôa Maria da Conceição, identificada como filha de Anna da Cunha Linhares. Casou-se com José Luís Napoleão em 17 de maio de 1862 na Paróquia de São José, Catedral da cidade de Fortaleza. Mas é como Preta “Tia Simoa” que ela entra para a história, designação na qual é rapidamente mencionada em alguns registros históricos, como em Raimundo Girão (1984), Clóvis Moura (2004) e Júlio Abreu (1934). Ela foi uma preta liberta que, ao lado de seu marido liderou os acontecimentos de 27, 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza – Ce, episódio que ficou conhecido como a “Greve dos Jangadeiros”. Como sabemos, foi por ocasião do referido fato que ocorreu o decreto do fim do embarque de escravizados naquele porto. Daí em diante foram definidos os rumos para a abolição da escravidão na então província do Ceará, que se efetivaria três anos mais tarde, em 25 de março de 1885.
Essa ação liderada por um homem preto liberto chamado José Luís Napoleão contou com o apoio popular graças à atuação de sua esposa, a Preta Tia Simoa, na mobilização da população local que impulsionou à greve. Segundo Girão, havia mais de mil e quinhentas pessoas mobilizadas por Simoa no momento em que, ao dia 27 de janeiro de 1881, gritaram de frente ao mar a uma só voz que “no porto do Ceará não se embarca mais escravos”.
A Preta Velha Tia Simoa cultivava práticas e aspectos da cultura afro-brasileira como uma detentora de um saber-fazer que remonta a herança africana na cidade de Fortaleza, o que parecia lhe garantir certa autonomia e prestígio, inclusive entre a elite da capital da província cearense, já que acabou seus dias recebendo os carinhos de uma renomada família de sua época, a família de Henrique José de Oliveira (pai do Dr. Cesar Cals).
A história da Preta Tia Simoa, que só veio a ter visibilidade após a dedicação da historiadora Karla Jaqueline Vieira Alves (eu) em investigar e produzir textualmente sua pesquisa sobre nossa personagem histórica serviu de referencial para um grupo de mulheres negras se organizarem politicamente na região do Cariri cearense que, trilhando outros caminhos na contramão dos silenciamentos, fundaram o “Coletivo Pretas Simoa” no ano de 2013 na cidade de Juazeiro do Norte, interior do Ceará que, naquela época, configurou como único grupo político formado exclusivamente por mulheres negras em todo o interior do estado.
A repercussão da atuação deste grupo político de mulheres foi tão impactante para a trajetória do movimento negro e do feminismo local que ultrapassou os limites do interior do Estado e, em 28 de setembro de 2021, foi aprovada a Lei de nº17.688 que instituiu o Dia da Preta Tia Simoa e da Mulher Negra e a Semana Preta Tia Simoa de combate à discriminação contra as mulheres negras no Estado do Ceará. E em 18 de outubro de 2022, na cidade de Juazeiro do Norte, foi aprovada a Lei de nº 5.393 que instituiu no calendário oficial do município o dia da Preta Tia Simoa e da Mulher Negra a ser comemorado no dia 25 de julho, criando também a Semana Preta Tia Simoa de Combate à Discriminação Contra Mulheres Negras em Juazeiro do Norte, muito embora a historiadora que produziu a pesquisa de maior referência sobre Simoa tenha tido seu nome invisibilizado da autoria de parte do texto do Projeto de Lei que veio a ser aprovado. Nem sequer a câmara municipal de Juazeiro do Norte reconhece que a autoria deste trabalho de pesquisa se deve ao protagonismo de uma juazeirense.
Ou seja, a mesma invisibilidade sofrida por Simoa que, apesar de ser bastante conhecida e estimada na capital da Província, de ter mobilizado a população (mais de mil e quinhentas pessoas, segundo Girão) para apoiar a primeira greve dos Jangadeiros em 1881 demostrando, assim, tanto a sua popularidade e influência quanto o seu engajamento político, passa despercebida pelos discursos sobre a abolição em jornais da época e pelos historiadores que, antes da minha pesquisa, se detiveram a revisar a história da abolição do Ceará, resultando na invisibilidade historiográfica de Simoa. Esta mesma barbaridade histórica se repete quando, na propagação de sua história através das leis instituídas em sua homenagem, invisibilizam o nome de outra mulher negra autora da historiografia que dá corpo ao texto da lei.
As relações sexistas somadas à condição racial, que se refletem nos grandes ícones de nossa história, nos revelam o fenômeno que atrela o conceito de gênero ao de raça, onde ambos descartam o discurso biologizante das diferenças para se deterem ao campo semântico do conceito abreviado de “mulher negra”. Assim sendo, devemos considerar que este é, sobretudo, um conceito determinado pela estrutura da sociedade e pelas relações de poder que a conduzem. Dessa forma, conhecer a história de Simoa, mulher preta cuja história esteve por muito tempo submersa entre os escombros da produção historiográfica é, pois, estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social historicamente invisibilizado no Ceará.
Sobre a autora:

Karla Jaqueline Vieira Alves
Mãe, escritora, historiadora e produtora cultural.