O gosto pelas narrativas insólitas é tão antigo quanto a própria humanidade. Mesmo quando o homem não dominava essa técnica, tampouco a escrita, ele possuía a arte de contar histórias e, assim, muitas foram criadas e imaginadas e passadas de geração em geração.
Há uma névoa que envolve o surgimento do fantástico, que ao longo dos séculos tem sido enriquecido pelo clima de mistério, de misticismo, pelas criaturas mitológicas, pela ficção científica, sobretudo os estados de espírito do homem que tem se modificado ao longo dos séculos. É importante frisar que esse tipo de literatura sempre esteve relacionado aos elementos simbólicos que envolvem o homem e o espaço no qual ele está inserido.
Não é possível dizer com precisão o que é uma narrativa fantástica, mas para que ela exista faz-se necessário a existência do sobrenatural (aquilo que não é explicável), embora o sobrenatural não seja o suficiente para determinar que aquele texto é fantástico. É preciso salientar que o sobrenatural é colocado diante do leitor para desestabilizá-lo diante de um cotidiano massacrante com suas normas e cobranças.
Pensar em uma narrativa fantástica é pensar em um evento sobrenatural em meio a um cenário familiar e verossímil. A vida cotidiana ocorre na sua normalidade, quando de repente algo inusitado e extraordinário acontece colocando as personagens em um impasse racional. A partir deste instante, elaboram-se conjecturas racionais para explicar um evento irracional que nunca chega a ser comprovado. Em outras palavras, na narrativa fantástica as personagens encontram-se um permanente estado de incerteza diante de fenômenos meta-empíricos que cruzam suas vidas. O fantástico garante, assim, o despertar desse sentimento, uma vez que projeta uma atmosfera ligada ao mórbido, ao insólito.
O estilo fantástico adotado como metáfora para a condição humana foi a base da escrita de Murilo Rubião (1916-1991) – escritor tímido e meticuloso – que costumava reelaborar seus textos mesmo depois de publicados, chegando em alguns casos, a alterar o final de algumas narrativas.
Através desse tipo de narrativa, o contista discute questões presentes em nossa sociedade: a solidão humana, crise existencial, o consumismo, o amor não correspondidos etc.
É importante salientar que o mineiro Murilo Rubião fez a opção pelo fantástico a partir da herança de suas intermináveis leituras de infância: contos de fadas, Dom Quixote, da História Sagrada e das Mil e Uma Noites. Ele próprio declarou: “sou um sujeito que acredita no que está além da rotina. Nunca me espanto com o sobrenatural, com o mágico. E isso tudo aliado a uma sedução profunda pelo sonho, pela atmosfera onírica das coisas. Quem não acredita no mistério não faz literatura fantástica”.
Sua estreia na Literatura deu-se anos antes do “boom da literatura latino-americana”, fenômeno dos anos 60. A obra intitulou-se O Ex-Mágico. O ano de publicaçãoé 1947. Em nossas letras, apenas em 1959 outro expoente do gênero fantástico aparecerá – trata-se do goiano José J. Veiga (1915-1999) com a obra Os Cavalinhos Platiplanto(1959).
A obra muriliana, desconhecida do grande público por aproximadamente três décadas, saiu do limbo com a reedição do seu livro O Pirotécnico Zacarias (1974). Na atualidade, com o apogeu do gênero fantástico através das letras hispano-americanas – é o caso de Gabriel Garcia Marques, Jorge Luís Borges, Júlio Cortázar – e, no Brasil, Lygia Fagundes Telles e Moacyr Scliar – é um dos autores mais referenciados dessa seara.
Influenciado por Machado de Assis e de estilo preciso, Rubião é um escritor que caminha por regiões que oscilam entre a fantasia e a realidade. Sua principal característica é a burilação da linguagem para criar no leitor uma sensação de “normalidade” diante de situações “anormais”. Rubião é um artesão da palavra. Sua maior obsessão é reescrever seus contos e usar epígrafes bíblicas, que deixam o leitor em um estado de espanto.
Logo, a narrativa fantástica funciona como um artifício ficcional que faz com que o homem se confronte com acontecimentos e medos que estão dentro de si, mas adormecidos. Já Murilo Rubião é um mágico, influenciado pela mitologia grega e pelo Antigo Testamento, que trabalha, paulatinamente, a linguagem para criar enredos desconcertantes capazes de levar o leitor a questionar o que é possível e o que não é possível.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler