Ninguém é Feliz sem Problemas

Luciana Bessa

Mulher potiguar, Margarete Solange Moraes, desde a infância foi uma leitora voraz. Como a relação entre leitura e escrita intrínseca, a partir da década de 90, passou a escrever: poesias, romances crônicas, contos e até mesmo peças de teatro.

Escritora premiada no concurso de literatura “Escritor Norte-riograndense”, Margarete Solange Moraes, teve a obra Ninguém é Feliz sem Problemas e outros contos publicada em 2009, pela Fundação Vinght-Um Rosado, Coleção Mossorense.

A leitura de Ninguém é Feliz sem Problemas (2009), composta por vinte contos, remete-nos a expressão latina ridendo castigare mores, ou seja, rindo se corrige os costumes. Isso acontece porque os textos em uma linguagem fluída, ora em primeira, ora em terceira pessoa, revelam críticas sutis à sociedade vigente através do humor, da ironia, diálogos engraçados e personagens irreverentes. Vale salientar que nem todos os textos adotam a comicidade. Relações amorosas (“Tarde demais”), trágico (“O Perdão de Sofia”), o cruel (“A vingança”), a superação (“A Raposinha”), o culto à beleza (“O Sonho de Catarina”), também se fazem presente neste livro.

Um dos pontos recorrentes da obra é a metalinguagem, já que volta e meia a autora usa a palavra para falar dela mesma. No conto “Assassino sedutor”, há um diálogo entre um escritor, Renato, e uma leitora, Andreia, sobre o assassinato de Silvia, a personagem do romance dele. Uma terceira pessoa escuta a conversa, e também por ser escritora, acaba se apaixonando por Renato, que se torna o “assassino sedutor”, personagem do último conto dela. No conto “Mary Nobody”, o mais interessante da obra, a discussão gira em torno da escrita produzida por mulheres e a dificuldade para publicação.

A narrativa traz a trajetória de Maria Batista, uma mulher de quase trinta anos, sem parentes influentes, mas com talento. Ao escrever seu primeiro romance, ela começa “a peregrinação pelas editoras tentando conseguir que alguém “lesse a sua obra e a indicasse para publicação. Era inútil”. Às vezes, ela era desincentivada pela quantidade de páginas do livro, outras vezes pelo seu próprio nome – Maria Batista -, já que não caia “bem para uma escritora se chamara” assim. Outras vezes era desacreditada pela capa do livro:- “É… a capa tá…bonitinha… – Foi você mesma quem desenhou?”. Como se não bastasse, algumas editoras diziam que ela era jovem demais. Então, Maria descoloriu o cabelo e fingiu ser mais velha. Foi chamada de “vovó”. E foi aconselhada a “fazer outra coisa mais útil”, já que “Hoje em dia ninguém lê mais, não”. Dois anos depois, procurou essa mesma editora usando o nome de “Mary Nobody” e levou um conto em inglês. “O conteúdo do conto não era importante naquele momento, bastava apenas que acreditassem que ela era estrangeira”. Dessa maneira, a “carioca Maria Batista iniciou sua carreira literária. Hoje ela é nacionalmente conhecida por seu talento e por sua astúcia também”.

O “complexo de vira-lata, tão bem descrito por Nelson Rodrigues, nos assombra até hoje. Valorizar a literatura (as artes em geral) estrangeira é um fenômeno pautado em fatores políticos, sociais, econômicos e históricos. A superação desse complexo passa por esses mesmos fatores, por isso, a necessidade da valorização da identidade nacional por meio de uma sociedade equitativa.

O conto que dá título ao livro – “Ninguém é Feliz sem Problemas” é primoroso. O narrador é um advogado aposentado chamado Jorge Davi. É casado com Melina, uma mulher jovem e bonita, pai de quatro filhos. Bem sucedido pessoal e profissionalmente, Jorge, que faz questão de dizer que não é o “Amado”, autor Gabriela Cravo e Canela e Capitães de Areia, descobre que ninguém é feliz sem problemas e aconselha o leitor, caso não os tenha, a procurá-los, já que a vida dele (Jorge Davi) não fazia o menor sentido sendo “perfeita”, pelo menos aos olhos dos amigos (em comum).

Mas ao se aposentar, ele resolveu se afogar em seus escritos. Como advogado, ouviu “muitas histórias incríveis”. Para não ser chamado de “plagiador sem criatividade” modificada a realidade. “A literatura é uma transfiguração do real” nos dirá o crítico Afrânio Coutinho, já que cabe ao artista dá uma nova roupagem a existência.

O que Jorge Davi não contava eram com pessoas “viciadas em gramática”, ou seja, leitores, críticos literários “muito virgulinos, isto é, têm mania de vírgulas”. Começa, assim, seus problemas, uma vez que “A vírgula é uma pedra no sapato de muita gente”. Enquanto uns têm certeza que ela fica, outros juram que ela deve existir. A vírgula torne-se o inferno de qualquer escritor. Ao conseguir explicar aos seus amigos a sua angústia diante do uso da vírgula, Jorge Davi se sente melhor, mesmo sabendo que elas o perseguirão a vida inteira. “Mas não faz mal, afinal, ninguém vive feliz sem problemas, não é mesmo?”.

Ninguém é Feliz sem Problemas e outros contos (2009) é uma obra leve, com uma linguagem fluida, que mistura o cômico e o trágico e permite o leitor rir e refletir sobre questões inerentes ao humano.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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