Durante aquele Estranho Chá (2010), de Lygia Fagundes Telles não estava no meu radar literário, mas depois que o professor Jucieldo Alexandre me apresentou o livro, não tive como escapar: li e, simplesmente adorei, como tudo o que tenho lido da autora nos últimos anos.
Entre memória e ficção são vinte e um textos marcados por uma fluidez que impressiona e cativa o leitor. Antes do primeiro texto há uma “Nota da Autora” em que ela explica o nascimento da obra em si: o jornalista Suênio Campos de Lucena ao preparar sua tese de pós-graduação, resolveu reunir crônicas da autora em uma obra em 2002, um momento “demasiado difícil” nas palavras da autora. Oito anos depois, o livro retorna as mãos de Lygia que reescreve três crônicas e corta uma delas. Com o sentimento de satisfação, Durante aquele Estranho Chá chega ao leitor em 2010.
Estamos diante de um livro organizado não pela autora, cujos textos foram publicados em periódicos e períodos desconhecidos pelos leitores, mas que estabelecem uma perfeita conexão entre si, já que retratam o que de mais precioso um autor, no caso uma autora, pode oferecer aqueles que a leem: seu processo literário, suas amizades e companhias, suas memórias!
Na impossibilidade de falar de todas as crônicas, vou me deter no texto que dá título ao livro, embora pudesse passar laudas falando de sua admiração e de seu amor pelo autor de Gabriela, cravo e canela (1958) – “Jorge Amado”. Ou o seu encontro com o escritor Jorge Luís Borges, quando visitou o Brasil por volta de 1970 “para receber o importante Prêmio das Américas, oferecido pelo então governador de São Paulo, Roberto de Abreu Sodré”, na crônica “A rosa profunda”. Ou mesmo da entrevista que ela concedeu a autora de A hora da estrela (1977), que antes de começar as perguntas, aproveitou para dizer que ela e Lygia se conheciam desde o começo de sempre, embora nunca tenha se lembrado de como se conheceram. O importante era que Lygia “nunca dificulta nada” … “Nós nos adoramos. Nossas conversas são francas e variadas” e isso inclui: livros, maquiagem, moda e homens. Até hoje imagino essas duas forças da literatura, uma em frente a outra, conversando sobre tais temáticas, em especial, homens. Oito são as perguntas da entrevistadora à entrevistada. Destaco a segunda: “Para mim [Clarice] arte é busca, você concorda?” e a última: “O que mais lhe perguntam?”. Segundo Lygia Fagundes Telles, o que mais querem saber a seu respeito é: “compensa escrever?”. Ao que ela responde: “Economicamente, não”. O que compensa é, na verdade, “os melhores amigos” feitos nesta trajetória literária, o leitor, “da solidariedade desse leitor que me procura e me abraça”. Estou falando do texto “Resposta a Clarice Lispector”.
Mas e o texto que dá título ao livro? Nasceu quando o crítico literário Fábio Lucas entrou em contato com Lygia para lhe pedir que escrevesse uma carta em virtude do centenário do nascimento do escritor Mário de Andrade “(São Paulo, 9 de outubro de 1893)”. Aceito o convite, o sentimento de Lygia é de perplexidade. “Mas o que dizer de novo sobre esse Mário de Andrade com o qual tive apenas uma conversa durante o chá, conversa, por sinal estranhíssima”. A beleza e a força do texto estão justamente nas dúvidas que a autora coloca na escrita da crônica: incluir Oswald de Andrade já que os dois foram amigos durante muito tempo? Não incluir? “Sobre ambos já foi dito e escrito tudo. Ou quase tudo, por que insistir?”. É da insistência que nascem as grandes obras. Além disso, a escrita literária nasce, justamente, de um processo de amadurecimento, burilação, suor, depuração, domínio do material – artesanato – que faz com que o talento do artista venha à tona, nos dirá Mário de Andrade em O baile das quatro artes, 1943.
Para contar sobre este estranho chá ocorrido no ano de 1944 na Confeitaria Vienense “ao som de violinos e piano”, Lygia deixa claro que não sabe se está sendo exata com os fatos narrados, afinal eles foram escritos em 2002 e a memória é precária, mas as emoções são exatamente daquele dia em que o “céu era tão limpo e o terno de Mário de Andrade era tão branco”. No meio do texto, ficamos sabendo que a então estudante de Direito, Lygia, escreveu uma carta ao autor de Macunaíma (1922), pedindo-lhe que lesse e analisasse seus contos. Ele telefona para sua casa e convida-a para um chá. A conversa entre dois estranhos – “Por que confiar em um homem que nunca vira?” Conhecer seus contos e poesias significava conhecê-lo?” – é esclarecedora para que a ousada Lygia caminhasse em busca de seu sonho: escrever.
Durante aquele Estranho Chá (2010) é um painel das memórias afetivas e literárias de uma das mais ousadas escritoras da Literatura Brasileira.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
