A dança dos felizes

Por muitos anos, quando a avenida Beira-mar ainda sediava o Fortal – o maior carnaval fora de época de Fortaleza – um homem ali chamava a atenção e reinava à frente de um público que vibrava, ria e aplaudia enquanto aguardava, das arquibancadas e camarotes, a entrada dos blocos na avenida. Espalhafatoso, o homem de cabelo e barba longos, tirava a camisa e, girando-a sobre a cabeça, criava coreografias e dançava a esmo.

 Agregava em seu entorno verdadeira multidão, um grupo enorme de brincantes do “baixo clero”, aqueles que não pertenciam aos blocos e formavam um grupo chamado “pipoca”, porque não usavam abadá de nenhum dos blocos e se divertiam nos espaços fora da corda. O homem era seu líder natural. Corria, fazia sinais de comando e desenvolvia os movimentos. Era espontaneamente seguido, sem ensaios ou qualquer combinação prévia com o grupo.

 Sério, até parecia agressivo, mas logo ele ganhava a simpatia dos que o seguiam na dança e dos que a ele assistiam e o aplaudiam do alto de seus camarotes.

Vi-o depois em outros momentos, dançando, pelo centro da cidade. Não o via como um louco, um louco que dançava e divertia os passantes. Ele era mais que isso. Pesava eu que certamente ele não era rico, mas era um homem que dançava porque era feliz. Ou um homem que era feliz porque dançava.

 No centro de Fortaleza, havia outra figura excêntrica. Uma mulher que se vestia como menina e vivia a dançar. Usava short e tênis, tudo cor-de-rosa. Ela parava na frente das lojas e os vendedores, que já a conheciam, “soltavam o som”. Era a deixa. A mulher, que já não era nenhuma mocinha, sorria, fazia trejeitos e dançava com empolgação jamais vista. As pessoas que passavam estranhavam, ignoravam, riam, espantavam-se, enquanto outras brincavam e a incentivavam, apenas por molecagem. Ela, como se estivesse em outra dimensão, apenas dançava e sorria.

Louca? Moradora de rua? Pedinte? Não havia resposta. Sabia-se apenas que ela dançava e, enquanto dançava, era ela uma mulher feliz. E isso era tudo.

Presenciei o encontro desses dois contumazes dançarinos. Vi-os dançar juntos e batizei o evento, para mim mesmo, de “a dança dos felizes”, pois eu via naqueles dois a mais pura manifestação da felicidade.  Há cerca de cinco anos, soube que aquele homem que vi dançar nas ruas era irmão de um conhecido ex-vereador de Fortaleza. Este sim, um homem rico de posses e de poder. Mas em quem não vejo um homem feliz. Não dança e não contagia com alegria os que estão em seu entorno como seu irmão o fazia. Infelizmente eu soube, também, na mesma época, que as ruas não seriam mais o palco daquele cabeludo feliz. Ele havia morrido.

O morador da periferia – e eu sou um deles – testemunhou, nos últimos anos, o florescer e o recrudescer o comércio de pratinhos de comidas típicas. Os pontos de venda tomaram conta das calçadas dos bairros. Gosto disso e não dispenso aquela combinação arroz/paçoca/creme-de-galinha. Num desses pontos aqui próximo, descobri outra personagem genial. Mais um dançarino que, ao encontrá-lo, acredito estar diante da felicidade em pessoa.

Baixinho, de camiseta, calção e tênis, ele já chegou dançando, centrado numa música que só ele ouvia sem a necessidade nem mesmo de fones de ouvido. Fez seu pedido e, enquanto esperava, requebrava e vibrava empolgado, como se estivesse em um show. Falava algumas coisas ininteligíveis. Era como se estivesse pedindo música ou elogiando o artista que se apresentava. Fazia alguns passos de dança e gesticulava. Com os olhos fechados, levava a mão ao peito sinalizando estar emocionado com a música que só ele ouvia. Visitei o local por vários dias, apenas para observá-lo. Ele sempre aparecia dançando e cada vez mais animado.

Eu o via ir embora, rua afora, degustando seu pratinho e dançando. Percebi que em nenhum momento ele interrompia sua dança. Perguntei à minha irmã, dona do pequeno empreendimento, sobre aquela interessante figura. Respondeu que todos os dias ela o via. Sempre dançando. Ele chegava, falava o mínimo, fazia seu pedido, consumia, depois saía. Em todos esses momentos, ele estava dançando. Vez por outra, gesticulava como se admirado com a qualidade da música que tocava somente para ele.

“Acho é bonito ele estar sempre dançando e sempre feliz”, disse-me ela, completando, meio reflexiva, após breve pausa: “Queria eu ter essa felicidade também”.

Atentei novamente para aquele detalhe no mínimo intrigante: não havia fones tocando próximo ou em seu ouvido. Entendi, porém, que a música que ele ouvia não era imaginária. Ela de fato tocava, mas era audível somente àquele homem, era audível somente aos que dançam e que são felizes. Acredito mesmo que em algum plano deve existir um palco, o mesmo onde dançam, felizes, aquele rapaz e aquele casal que mencionei há pouco.      Deparo-me agora sonhando um mundo como esse palco imaginário, onde todas as pessoas possam ouvir a melhor música de sua e dançar, em comunhão, a “dança dos felizes”.

Sobre o autor:

Ivan Melo

Graduado em Letras pela Universidade Estadual do Ceará – UECE/ Mestre em Letras pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *