Inventando Anna: uma vida de aparências

Quem me conhece mais de perto sabe que não sou afeita a assistir minisséries e séries. É que muito facilmente me apego à narrativa e, claro, quero acompanhar até o final. Como o tempo é um artigo de luxo, prefiro empregá-lo lendo livros, mesmo sabendo que não lerei nem metade do que há na minha lista literária.

Mas dia desses, eu me traí. Quem nunca? Estava olhando o catálogo da Netflix depois de seis meses de completa ausência, mas não encontrei nada que parecesse interessante. Quando ia começar a procurar o sono (às vezes demoro a encontrá-lo),  esbarro em Anna.

Lançada em 2022, a minissérie com nove capítulos – “Inventando Anna” – retrata a trajetória de uma jovem alemã, que se apresentava como herdeira, cujo sonho era criar a “Fundação Anna Delvey”, no coração de Nova York.

A minissérie foi inspirada (não só) na obra Inventando Anna, da escritora Rachel Deloache Williams, à época, uma das melhores amigas da suposta milionária. Ambas fizeram uma viagem (com outras pessoas) para o Marrocos. Misteriosamente os cartões de crédito de Anna param de funcionar. Foi Rachel que, literalmente, teria pago a conta (62 mil dólares) nos cartões corporativos da empresa para qual trabalhava – a Vanity Fair.

Rachel busca desesperadamente reaver esse dinheiro, mas não consegue. Então escreve um relato minucioso desse fato para à revista em 2018. Quatro anos depois, o texto se transformaria na obra da qual estamos falando – eleita para a revista Times – o melhor livro de 2022.

Na obra, o foco é Anna, descrita pela ex-amiga como uma jovem inteligente e generosa. Contudo, aos poucos, um rastro de contas não pagas e de mentiras vão sendo descobertos por onde Anna passa. Até o momento em que a justiça é acionada e Anna Delvey, na verdade Anna Sorokina, é presa. Condenada a três anos de reclusão, ela assina com a Netflix um contrato milionário.

“Inventando Anna”, a minissérie, tem direção de David Frankel e o roteiro/produção de Shonda Rhimes, a mesma que produziu “Grey’s Anatomy”. O foco aqui é a jornalista Jessica Pressler, na série chamada de Vivian Kent, que ficou obcecada por descobrir de fato quem era aquela jovem, não bonita, capaz de quase  conseguir um empréstimo de quarenta milhões de dólares para uma fundação de luxo que levaria seu nome.

Ela ainda roubou um jatinho para ir, junto com seus “amigos”, a um evento de Warrer Buffett, investidor  e filantropo americano em Omaha.  Com as famosas frases: “O dinheiro deve estar chegando”,  “passe novamente o cartão”, “meu pai cortou meu dinheiro”, “meu fundo vai ser liberado em breve e eu vou te devolver tudo”, “o banco ainda não liberou”, Anna conseguiu realizar feitos dignos da mais pura ficção.

À medida que assistia a minissérie, me questionava: como uma mulher jovem e estrangeira usando roupas de grife e dizendo que tinha sessenta milhões de euros em seu país de origem consegue enganar a elite nova-iorquina?

A seu favor, Anna era a própria personificação do luxo. Seu modo de se vestir, de se portar, seu conhecimento sobre música, artes, culinária, sua inteligência para a matemática e,claro, seu domínio da linguagem.

Sabemos que a linguagem é um instrumento de dominação que permite a determinados grupos imporem sua ideologia, seus valores. Anna nunca pegou  em uma arma, até onde eu pesquisei, nunca dormiu com um homem para obter vantagens (como pensou a jornalista Vivian Kent quando escrevia sobre ela),  ameaçou ou chantageou quem quer que fosse. Seu porte imponente e seu poder de manipulação lhe abriram portas. Há também o fato de que todos ao redor de Anna pouco estavam interessados em saber quem era ela e se sua história de milionária era verdadeira. No mundo das aparências, queriam tão somente usufruir de seu mundo glamouroso.

No período em que esteve em Nova York, Anna namorou Billy McFarland, o idealizador do Fyre Festival voltado para os super ricos. O evento prometia shows exclusivos em resorts de luxo, mas foi um completo fiasco. Billy, durante algum tempo, bancou as contas de Anna e ela teria dado um golpe nele. Tempos depois,  ele também acabou sendo condenado por suas fraudes.

Mesmo presa, Anna comportava-se como se todos estivessem errados a respeito dela. Portava-se como uma celebridade. Ao ser levada ao tribunal, usou roupas de marca. Um dos jornalistas do New York Times que fez a cobertura do julgamento, afirmou que uma das sessões atrasou, porque a ré não aceitava ser exposta com a roupa usada na cadeia. Com a ajuda de um estilista, Anna se apresentava impecavelmente perante ao júri. Toda a indumentária teria sido custeada pelo advogado de Anna que, claro, nunca foi pago por ela. Na série, podemos ver que os modelitos que ela usou fizeram o maior sucesso na Internet, com direito a um perfil no Instagram até hoje.

Na série, depois que a reportagem de Jessica Pressler, chamada de Vivian Kent, foi publicada e a jornalista ganhou notoriedade, ela viajou para Alemanha para conhecer os pais de Anna. Esse momento da série foi o único do qual não gostei, porque leva o expectador a pensar que o trabalho de Pressler/Vivian estaria equivocado (isso já havia acontecido em 2014 com outra reportagem). Em entrevista à Vulture, a jornalista disse que tinha muito material sobre o assunto e que, na verdade, gostaria de escrever um livro, o que acabou não acontecendo.

“Inventando Anna”, para além de uma minissérie/livro, é uma daquelas narrativas em que o dinheiro, o poder e as redes sociais, quando juntos, causam uma verdadeira explosão no mundo das aparências.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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