Da varanda, escrevo as mais absurdas inquietações. Arremesso, quebro, entorto, queimo e adormeço versos. Trago a lua e o sol para debulhar a terra, enquanto leio os jornais molhados de sangue e entupidos de tragédias. Escuto os gritos do meu silêncio em cada página. Nenhuma notícia de paz, nenhuma linha sobre a tomada do poder pela classe trabalhadora, nem sobre a divisão da terra, do pão, dos bancos e das fábricas. Os jornais não são nossos, muito menos as ideias. Eles jamais dividem os lucros e a poesia, jamais.
Juro que não queria falar de jornais. Queria ver da varanda as crianças brincando com os cachorros na quadra. As cores, os brinquedos, as roupas sem a pergunta: são para menino ou menina? Queria comer a liberdade na praça, acompanhado da sinceridade e do diálogo. Os jornais mentem, nós treinamos para não sermos sinceros. Absurdo é ser verdadeiro! Engolimos as emoções e depois as enterramos no fundo da alma.
Da varanda não posso quase nada, apesar de fazer com que a lua e o sol debulhem a terra. Posso escrever dez mil mentiras e destruir a vida de alguém com uma orquestra de palavras; os jornais fazem isso.
Queria um minuto de silêncio — um minuto é muito pouco. A Inteligência Artificial produz em menos de um minuto anos de pensamento. Este ano tem eleições. Preciso sair da varanda. Os jornais não são nossos, e a Inteligência Artificial é capaz de produzir mais fé do que os livros sagrados.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
