O quarto proibido

Há oito meses reduzo a passada ao chegar em frente à soleira desta porta, mas não tenho coragem de abri-la. Paro no corredor e apuro meus ouvidos para saber o que passa por dentro dessas paredes que não posso ousar atravessar. Enquanto isso, perco meu olhar marejado de sono nas camadas de tinta da parede que encaro nos raros momentos de silêncio.

Toco a maçaneta. Seguro. Me falta força. Me falta coragem.

Questiono tudo que preciso desfazer para voltar ao que antes era o normal, o real, que agora não passa de mera lembrança e um simples pensamento indesejado que deixa o momento com um sabor mais travoso, tipo pitomba.

Conheço cada detalhe desse quarto, vivi a maior parte da minha vida dentro dele. Na verdade, é o meu cômodo preferido da casa, mas nesse momento seu formato é inapropriado para as minhas necessidades. Por isso, não ouso ultrapassar essa soleira ou girar a maçaneta.

Mais uma vez. Sento-me em frente à porta. Tento manter a seriedade, mas rir da própria desgraça é mais conveniente do que chorar pelo leite que derramou no fogão e de que as formigas se apossaram.

Escuto me chamarem. Não posso me demorar pensando na cor das paredes internas que com o tempo esmaecem nas fotografias da minha mente. Nunca gostei de lamentar o que se foi, sempre acreditei que é um tempo perdido, mas parte da lamentação carrega a saudade e a certeza de que tudo foi bem aproveitado até a porta fechar.

Algumas vozes tentam me dizer que encontrarei um meio termo, entre os outros cômodos que se recompõem para a nova realidade e o quarto proibido, mas nesse espaço, o que sobra é apenas a soleira, estreita e nem sempre visível, que não me cabe por inteiro.

Outras vozes trazem a esperança de um dia conseguir habitar todos os lugares e que ainda serei capaz de abrir as janelas do quarto para apreciar paisagem. Mas agora, com meus pensamentos ocupados com a responsabilidade de manter funcionais todos os quartos e salas, nem consigo lembrar ao certo dessa vista. Nos primeiros dias, talvez. Mas me resta apenas uma vaga impressão de que olho ao redor e encontro cores parecidas. Possivelmente, mera impressão passageira.

Percebo que antes meu olhar era preciso quanto a cores e objetos, agora enxergo apenas vultos que ganham contornos precisos pela visão do que escuto de outras vozes.

Com os lábios em riste. Olhos que buscam a profundidade. Encaro a soleira mais uma vez. Desfaço os lábios e sorrio por dentro. Percebo que, afinal, aquele local de limite pode ser entendido também como passagem.

Finco os pés de um lado. Deixo meus chinelos marcando a posição em que estou. Saio para ocupar outros lugares.

Passo pela porta e fito os chinelos posicionados para entrar, mas parados. Falta o tempo, a coragem e a força, mas percebo que consigo carregar o mais importante, a esperança de que consiga movê-los mais cedo ou mais tarde. Reconheço que o meu tempo está em suspenso enquanto o outro que consome a minha vida corre desenfreadamente e, por enquanto, tenho necessidade de alcançá-lo.

É o curto espaço de tempo em que tento me reconectar com as lembranças do que está por trás da porta, enquanto alimento o sonho de um dia movê-los e entrar. Afinal, a esperança é a última que morre.

Gostaria de escrever realmente sobre cômodos, soleiras, portas e janelas, mas peguei emprestado essas figuras para colocar no papel aquilo que não podemos tocar, mas que está dentro de nós: a vida.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.

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