Conheci Rosa Montero através do amigo Jorge Nogueira, autor da obra Inventário dos seus abraços (2023). Numa manhã de 2024, ele chegou em minha sala, trabalhamos na mesma instituição, e me presentou com a obra A ridícula ideia de nunca mais te ver (2013), da madrilena Rosa Montero.
Foi então que me lembrei que Jorge havia me perguntado algumas vezes: “Amiga, você tem A louca da casa?”. Ao que todas às vezes, respondia: “Não, não tenho”. Tempos depois, nos encontramos pelos corredores literários e ele me confidenciou: “Li A louca da casa e gostei”. O que poderia dizer diante de uma situação dessas: “Me empresta”. Cá estamos.
Lançado em 2003, eu não fazia ideia de que esse título – A louca da casa – havia sido extraído de Santa Teresa de Jesus que nomeou a imaginação. Um escritor/Uma escritora para existir, muito além do que técnica, precisa de uma luz dentro de sua mente que ascenda cotidianamente. São justamente as demandas, junto com a sensatez e a prudência, que fazem com que essa luz vá se apagando aos poucos.
Se é verdade que os escritores precisam manter pulsante a criança interior que há dentro dele, Rosa Montero é uma criança traquinas. Seu olhar múltiplo, diverso e mágico, conduz o leitor a um universo em que não é possível separar ficção e realidade. Mas do que técnica, um escritor/escritora necessita da imaginação. A de Montero, às vezes é sem freios “como um raio no meio da noite: abrasa mas ilumina o mundo”.
Dividido em 19 capítulos – A louca da casa – é uma obra que entrelaça vida pessoal da autora e literatura, além das inúmeras leituras de Montero, suas reflexões sobre o que é ser escritor/escritora, por que sê-lo, seu papel na sociedade, as premiações, seus percalços, suas manias – entrar numa livraria para comprar seu próprio livro. Interessante a quantidade de autores citados por ela: faz parecer que não sou leitora dado aos nomes que ainda não li (Sei que seria necessário mais do que uma vida para ler tudo o que gostaria). Um dos pontos fortes da obra é justamente entrar em contato com nomes/dilemas de escritores/escritoras, como: Carson McCullers, Rudyard Kipling, William Cuthbert Faulkner Sergio Pitol, Martin Amis, Isaiah Berlin etc.
A louca da casa é dedicada à sua única irmã: “Para Martina, que é e não é. E que, sendo, tem me ensinado muito”. Dentro da obra Martina é citada várias vezes: ela é descrita sendo tudo o que Montero não é: organizada, prática, calma, destemida, além de saber se localizar no tempo e espaço como ninguém.
Na impossibilidade de discorrer sobre todos os capítulos (o texto ficaria longo e chato), destaco três: No segundo, Montero declara que “O escritor está sempre escrevendo”. Essa é a graça de ser romancista: ter uma “torrente de palavras que borbulha constantemente no cérebro”. Além disso, tem o privilégio de ser sempre uma criança, de poder ser um louco, de “dizer o que as conveniências calam”. Não bastasse, “A cabeça do romancista vai onde ele bem entende; está possuída por uma espécie de compulsão fabulosa”. No entanto, Montero não sabe dizer se isso é um dom ou um castigo. Nisto tudo, há de haver um bem para a sociedade, caso contrário, a existência do escritor (a) não seria permitida. O ruim é que depois que reconhece esse poder, corre o risco de estragar e perverter tudo.
No capítulo doze, o assunto é a morte. Voltando alguns capítulos (terceiro), a narradora afirma que os romancistas “escribas incontinentes” disparam, sem cessar, palavras contra a morte. O pecado original de um escritor/ escritora é o “esquecimento absoluto”. Nove capítulo adiante, a narradora lembra-nos que o romancista “escreve contra a morte” e uma das coisas que mais a diverte é a “ânsia de posterioridade que muitos escritores têm”. Trata-se de um defeito eminentemente masculino, já que em suas pesquisas poucas mulheres romancistas têm esse afã. Por isso, Rosa se pergunta como ela se enquadrará, já que não tem filhos e criou para si mesma “uma biografia aparentemente pouco feminina”. No fim das contas, “O tempo tritura tudo, deforma e apaga tudo…”.
No capítulo treze, a narradora diz não ter escolha a não ser falar sobre o “enervante assunto de mulheres”, já que há 30 anos ela vem sendo questionada com duas perguntas: 1) existe uma literatura de mulheres?; 2) você prefere ser jornalista ou escritora?. Rosa diz não se interessar em absoluto em “escrever sobre mulheres”. Seu interesse é pelo humano, mas coincidência ou não, 51% da humanidade é do gênero feminino e como ela pertence a esse grupo, a maioria de suas protagonistas são mulheres. E não, “não existe uma literatura de mulheres”.
É importante salientar que Rosa se considera uma feminista, ou melhor, antissexista isso não “implica que seus romances o sejam”. Ela ainda declara detestar as narrativas “utilitária e militante, os romances feministas, ecologistas, pacifistas ou qualquer outro ista que possa ser pensado…”.
A narradora reconhece as mudanças do mundo ocidental em relação às mulheres, embora a cultura oficial permaneça machista. O gênero feminino permanece pouco representado nos congressos, nas academias e nas enciclopédias. Não bastasse, os críticos confudem a vida da autora com sua obra (o mesmo não acontece com os homens).
Quanto à outra pergunta repetitiva e tediosa sobre ser jornalista ou ser escritora, Rosa avisa que é mal formulada, pois há muitos tipos de jornalismo: “de direção, de edição, de televisão, de radio… Todos esses trabalhos não são os que Rosa faz/fez. O jornalismo a que se dedica é o escrito, da pena, da articulação, “um gênero literário como qualquer outro, equiparável à poesia, à ficção, ao drama, ao ensaio”. E Rosa se considera uma escritora que cultiva a ficção, o ensaio e o jornalismo.
Muito se pode falar sobre A louca da casa, esse ensaio literário, romance, autobiografia (?). Para mim, uma aula sobre o processo criativo de Rosa Montero. Em uma linguagem fluida e envolvente, a autora discorre sua relação com a literatura, que para ela, envolve a “própria vida e dos outros, da felicidade e da dor”. Claro que não poderia faltar o amor, já que se trata da maior paixão inventada das “nossas existências inventadas”.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
