Na véspera do Oscar, quando tantas produções disputam atenção através do espetáculo e da grandiosidade, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, se destaca pela força silenciosa de sua construção. O longa que chega à cerimônia com quatro indicações confirma a maturidade de um cinema brasileiro que não busca apenas contar histórias, mas refletir sobre o próprio país, sua memória e suas lacunas históricas.
À primeira vista, o título pode sugerir um thriller tradicional de espionagem. Mas o filme deliberadamente evita essa expectativa. O “agente secreto” aqui não é uma figura heroica no sentido clássico do gênero. Em vez disso, a narrativa acompanha Marcelo personagem de Wagner Moura um homem que tenta reconstruir a própria vida enquanto carrega as marcas de um passado atravessado pela violência e pelas sombras da ditadura militar brasileira.
Ambientado no Recife de 1977, o filme constrói sua tensão menos através da ação e mais através do clima, uma atmosfera constante de vigilância, silêncio e ambiguidade. A direção demonstra enorme confiança na inteligência do espectador. A história não é entregue de maneira explicativa, mas construída gradualmente, através de gestos, fragmentos e relações entre personagens.
Wagner Moura sustenta esse universo com uma atuação profundamente controlada e elegante. Seu personagem é marcado por camadas alguém que parece sempre estar carregando mais do que revela. Dentro desse mosaico de personagens, surge uma figura absolutamente memorável: Dona Sebastiana, interpretada por Tânia Maria. Administradora do edifício que abriga pessoas deslocadas e perseguidas pelo regime, ela traz ao filme uma presença de enorme humanidade. Sua naturalidade e seu carisma profundamente brasileiros criam momentos de calor e humor que equilibram a densidade política da narrativa. Não se trata apenas de um alívio dramático: Dona Sebastiana é uma das forças que humanizam o universo do filme.
Outro detalhe fascinante da construção narrativa está nas notícias de jornal que aparecem ao longo da história. Em vez de grandes acontecimentos políticos, muitas manchetes se concentram em episódios curiosos ou quase absurdos como a famosa história da “perna cabeluda”. Essa escolha não é gratuita. Durante os anos da ditadura, histórias aparentemente banais ou folclóricas funcionavam muitas vezes como formas indiretas de contornar a censura e falar sobre violências que não podiam ser noticiadas diretamente. Assim, enquanto o cotidiano se preenche de rumores e lendas urbanas, acontecimentos muito mais graves permanecem ocultos como se a própria história estivesse sendo narrada pelas margens.
O desfecho do filme traduz essa reflexão de maneira particularmente contundente. Em vez do encerramento reconfortante que muitos talvez esperassem, a narrativa termina com um corte abrupto, quase seco, que interrompe a história de forma deliberada. Depois de todo o percurso e de todo o esforço do personagem para compreender e reconstruir aquilo que ficou para trás, permanece a sensação de que nada foi realmente resolvido. Essa escolha narrativa carrega um peso histórico evidente. O filme parece lembrar que, para muitas pessoas, o destino foi justamente esse histórias interrompidas, trajetórias que terminaram sem reparação ou reconhecimento. O que resta são fragmentos, memórias dispersas e a percepção dolorosa de que muitas dessas vidas acabaram, com o tempo, sendo empurradas para as margens da própria história.
Essa ideia aparece de forma devastadora na conversa entre Flávia perssonagem que investigou o passado de Marcelo e Fernando, o filho dele. Quando o jovem admite que praticamente não se lembra do pai, surge um paradoxo silencioso: Alguém de fora conhece fragmentos daquela vida que o próprio filho não guarda na memória. O filme transforma esse instante em uma reflexão poderosa sobre o tempo e o esquecimento.
Até os espaços parecem carregar essa mesma lógica. Lugares que um dia tiveram um significado como o cinema onde certas histórias foram projetadas reaparecem transformados em outras instituições, O mundo segue em frente, os lugares mudam de função, e aquilo que não é preservado acaba dissolvido na passagem do tempo. Talvez seja por isso que O Agente Secreto permaneça tanto na mente depois que termina. Mais do que um suspense político ou uma reconstrução histórica, o filme é uma meditação profundamente sensível sobre memória: sobre aquilo que sobrevive, sobre o que se perde e sobre como certas histórias, quando deixam de ser contadas, acabam desaparecendo mesmo para aqueles que deveriam carregá-las consigo.
Título Original: O Agente Secreto
Ano de Produção: 2025
Gênero: Thriller, Drama, Suspense
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Elenco Principal: Wagner Moura (Marcelo), Maria Fernanda Cândido (Elza), Gabriel Leone (Bobbi), Thomás Aquino (Arlindo), Udo Kier (Hans)
Sobre a autora:

Natalia Silva
Coordenadora administrativa em uma instituição de ensino técnico (Cedup), apaixonada por cinema e pseudo-crítica nas horas vagas. Acredito no poder dos filmes para contar histórias inesquecíveis, despertar emoções e expandir nossa percepção do mundo. Entre críticas e análises, me jogo em diferentes gêneros e busco sempre novas perspectivas sobre o cinema.
Criadora da página do Instagram Cine Histeria (@cine_histeria), onde compartilho reflexões sobre o universo cinematográfico.
Apaixonada por cinema e pseudo-crítica nas horas vagas. Fã de terror e apreciadora de bons filmes com contexto histórico. Graduanda em Recursos Humanos
