Quem é Adah, Maria, Ana, Francisca, Fátima, Isabel, Carmen, Marta, quem somos todas nós?
Buchi Emecheta nasceu em 1944, em Lagos, na Nigéria e, aos 18 anos, já casada e com filhos, migrou para a Inglaterra. Em 1974, ela publicou o livro Cidadã de segunda classe, um romance autobiográfico, no qual, retratada como a personagem Adah, relata parte da sua história, da infância até a idade de 22 anos.
A obra, com apenas alguns poucos elementos ficcionais, é dolorosa, pungente e lamentavelmente atual. Gostaria de nunca dizer, atemporal. Gostaria mesmo que um dia pudéssemos nos referir a ela como um livro histórico, que trata de questões que existiram no passado, mas que, felizmente, foram superadas. Temo que esse dia não chegará, nem nessa geração, nem nas próximas. Talvez daqui há uns tantos mil anos.
Mas, qual história ali contada não é, em alguma medida, a história de cada uma e de todas nós? Não as especificidades das vidas individuais, mas as vivências de violência doméstica, de abuso, das dificuldades trazidas pela pobreza material (privação de alimentos, pouco acesso aos sistemas de saúde e educação, moradia inadequada) do racismo, da intolerância, do cuidado exclusivo (ou quase) com os filhos, da dupla jornada, dos sacrifícios, das noites maldormidas, da solidão, do abandono, da luta incessante por uma vida melhor e mais digna, da esperança sempre renovada, mesmo após tantos revezes, tantas desilusões?
Adah relata situações de discriminações e desigualdades que intercruzam gênero, raça e classe. Opressões interseccionais em cujo centro ela se encontrava e do qual, incessantemente, tentava escapar.
Seu corpo não cabia no mundo, nem sua cor, nem seus cabelos, nem o cheiro incômodo da sua dor, do seu inconformismo, da sua inquietação e da sua coragem. Tão mais fácil pro mundo se ela se resignasse, se escondesse, se aceitasse o pouco que sua condição lhe impunha… Mas o tempo todo ela torcia as grades e passava pelas brechas, criando caminhos para seus pés feridos, sentando de vez em quando, como faz parte, à beira da estrada para retirar os arames enredados no seu coração.
A terra prometida, Londres, revelou-se como um lugar bruto, onde se evidenciaram as diferenças culturais, mas, sobretudo, um lugar no qual Adah descobriu ser negra. Ser negra era sentir medo e causar medo nos outros. Ser exótica e assustadora. Excluída, isolada, sozinha. Era estar nos piores empregos, com os piores salários e nos piores lugares para morar, já que, mesmo dispondo de dinheiro para arcar com o aluguel de uma casa melhor, sempre havia nos anúncios o seguinte aviso: “Desculpem, pessoas de cor não serão aceitas”.
Foi punida por tentar ter uma vida melhor. Inclusive por seus compatriotas, com os quais convivia no mesmo prédio, que haviam aceitado e se comportavam, efetivamente, como inferiores. Logo, querer fugir disso era uma ousadia impensável, era quebrar um elo da grande corrente da subalternidade que os unia no país estrangeiro. Ver um dos seus saindo não era motivo de orgulho, mas de incômodo, porque, se havia uma outra possibilidade, defintivamente estava acessível a bem poucos. Querer ocupar um lugar que não lhes pertencia exalava arrogância, um sentimento de superioridade impossível de tolerar. Para os nigerianos migrantes, ser inferior aos brancos ingleses talvez fosse sua porção cabível no mundo, a (má) sorte possível, mas inferior a uma igual era inadmissível, superava os limites da humilhação. Assim, a família de Adah, após meses suportando vários insultos, foi expulsa do edifício onde morava.
O marido de Adah, Francis, passava o dia em bibliotecas, estudando para prestar os exames para cursar Contabilidade, enquanto ela cuidava da casa, dos filhos e trabalhava fora para arcar com o sustento da família. Ela achava que isso era o certo a fazer. Assim como estar sempre disponível para fazer sexo quando o marido quisesse, sustentar os sogros, apanhar em silêncio para que os vizinhos não ouvissem. Ela havia, inclusive, pensado que, se o marido fosse diferente, teria desistido do seu sonho de estudar – pelo qual lutara desde a infância – para ser dona de casa, já que ele não tolerava que ela fosse instruída.
Ao finalizar a leitura, constato, tristemente, que Adah, assim como Buchi Emecheta, Maria, Ana, Francisca, Fátima, Isabel, Carmen, Marta, são todas personagens de um mesmo roteiro. Um roteiro que naturaliza e invisibiliza as violências sofridas pelas mulheres, que as culpa pelos seus próprios assassinatos e estupros, que lhes dá funções, de dona de casa, mãe e esposa, que elas devem desempenhar com esmero, dedicação e sacrifício, embora nunca sejam consideradas boas o bastante.
Para as que interpretam seus papéis com força, leveza e graça, ou seja, que se submetem sem reclamar e que incentivam as demais a fazerem o mesmo, aplausos ao final. Parabéns, mulheres fortes e guerreiras!
E tudo fez sentido pra mim, uma mata de mulheres-árvores, frondosas, juntas, fortes, se erguendo acima de tudo e alimentando a vida.
Sobre a autora:

Dina Melo
Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.
