A hora da estrela

A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector, foi a última obra lançada pela autora ainda em vida e a que mais me desestabilizou enquanto leitora. Em sua única entrevista concedida ao repórter Júlio Lerner (TV Cultura), Clarice fala da obra com “treze nomes, treze títulos”, embora não os cite. Diz se tratar de uma narrativa sobre uma moça “tão pobre que só comia cachorro-quente. Mas a estória não é isso, é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima”.

Clarice, cujas protagonistas são do gênero feminino, em suas obras anteriores deu vazão a mulheres de classe média envoltas em suas vivências e suas dúvidas quanto a ser esposa e ser mãe. Valendo-se, ainda, dos aspectos metalinguísticos, psicológicos e intimistas, em A hora da estrela ela se volta para uma mulher pobre, órfã, migrante do Nordeste, forjada no não afeto, na alienação, na dor de existir e na solidão.

Para contar essa narrativa, o escolhido foi o narrador Rodrigo S. M (há aqueles que dizem se tratar (“Substantivo Masculino” ou “Sua Majestade”), leitor dos clássicos, mesquinho e insensível às classes sociais menos abastadas, que abdicou do seu mundo confortável, dormiu pouco, adquiriu olheiras, vestiu-se “com roupa velha rasgada” para pôr-se “no nível da nordestina”. Seu desprezo por Macábea é tamanho que a apresenta como “incompetente”, “alma rala”, “café frio”, dona de um “rosto que pedia tapa”, “capim vagabundo” etc. Já ele pode ser lido como mais um dos sujeitos do mundo capitalista que invisibiliza e marginaliza o outro.

Além disso, decidiu não “ser mordenoso e inventar modismos à guisa de originalidade”, motivo pelo qual optou, mesmo contra seus hábitos, a tecer uma narrativa “com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo”. Ou seja, Rodrigo S. M, precisou virar pelo avesso para dar conta da complexidade do ser e do estar no mundo macabeano.

Cada página de A hora da estrela impera a fome: ora de afeto, ora de comida, ora de reconhecimento. Minha relação com a obra data da minha fase balzaquiana em que ainda não conhecia com precisão a capacidade que Clarice tinha em retratar a angústia do ser e do estar em sociedade. Neste primeiro contato com criadora e criatura, me deparei com a dor da invisibilidade de uma personagem a partir de três aspectos: ser mulher, ser feia e ser nordestina.

A personagem central de A hora da estrela éMacábea, uma mulher do sertão de Alagoas, órfã de pai e mãe, criada por uma tia beata, que lhe deu muitos cascudos (por isso aprendera a andar de cabeça baixa) e nenhum amor. Feia e magra, sem anjo da guarda, ela gostava de não pensar em nada e pedir aspirinas à Gloria: “– Por que é que você me pede tanta aspirina?… – É para eu não me doer. – Como é que é? Hein? Você se dói? – Eu me doo o tempo todo. – Aonde? – Dentro, não sei explicar”.

Sozinha no mundo, após a morte da tia, Macábea, como muitos nordestinos, muda-se para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Lembrando que a migração é uma das temáticas vivenciadas pela própria autora na ficção e fora dela.

No Rio de Janeiro, com mais de seis bilhões de habitantes, Macábea, encontra solidão, exclusão e silêncio. A cidade maravilhosa é imagem para cartão postal, na prática, não sabia das dores, tampouco de sua existência da personagem.

No Rio, Macábea, que trabalhava como datilógrafa, embora não dominasse a Língua Portuguesa, não vive; ela sobrevive, assim como as quatro outras mulheres com quem divide um quarto numa pensão: “moças balconistas das Lojas Americanas: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria apenas”. Tal vocábulo me remete à mãe de Jesus, mulher dotada de força, determinação e resiliência. Derivado do hebraico, Maria pode significar, ainda: “mar amargo”, “águas fortes”, “exaltada”. A força de Maria, mãe de Jesus, assim como das personagens clariceanas, está na sua capacidade de perseverança diante do sofrimento.

Já o nome Macábea, tem origem no vocábulo bíblico “Macabeu”, que significa “martelo”, ou “que esmaga”.  Porém, na narrativa de Clarice, Macábea é esmagada do nascimento à morte: pela tia, pelo namorado (Olímpico), pela colega de trabalho (Glória), pelo chefe (Raimundo Silveira), pela cartomante (Carlota) e, no fim da narrativa, por um Mercedes-Benz de cor amarela, momento em que foi vista por todos, já que atrapalhou o trânsito.

Em A hora da estrela somos guiados para uma jornada de reflexões sociais e existenciais acerca de uma mulher, Macábea, nascida para a dor, nascida para a resistência.

O mês é junino. Contudo, neste dia 21 de junho, é preciso exaltar a genialidade do Bruxo do Cosme Velho, que nos legou uma obra atemporal e multifacetada marcada por uma forte crítica social e protagonizada por mulheres à frente de seu tempo.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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