Eu era menino,
menino que jogava bolinha de gude.
Sonhava não tão longe,
imaginar a brincadeira de amanhã
já era mais que suficiente.
Eu era menino,
com rajas de lama,
pele queimada de sol
e o cansaço de correr em volta do campinho de terra.
Voltas e voltas em torno de mim mesmo,
porque ali
eu era eu,
eu menino.
Mas o tempo,
o tempo é um algoz dos meninos.
Ele rouba o direito do menino ser menino.
Se eu soubesse disso,
teria desconfiado dele desde pequenino,
quem sabe assim
ele largasse do meu pé descalço e livre,
pé livre de menino.
Mas não,
o tempo fez o que sabe fazer de melhor:
levou a meninice da gente.
Agora sou até capaz de reclamar
quando um menino joga bola
e acerta meu portão.
Logo eu,
que tanto fiz isso quando era menino.
Deve ser inveja
Afinal,
acho que a vida adulta
é um conflito armado
entre a obrigação de ser homem
e o desejo secreto
de voltar a ser menino.
Sobre o autor:

Micael Sousa Ribeiro
Graduado em Direito Pelo Centro Universitário Doutor Leão Sampaio. Fascinado pela escrita.
