Desejo imenso de viver

Logo na sala, um oratório de remédio: cada caixinha, um santo pago. Febre, dor de cabeça, calafrio, garganta inflamada. Noites suadas e solitárias. Dias enclausurados. Um caldo quente com farinha e carne moída de vez em quando, água de coco. Vontade de dormir, cabeça martelando. Desejo imenso de viver, mas todas as placas dizem não. Os monstros estão vivos e são meus. Se soubesse como fazer, mataria todos e não levaria pecado nenhum para onde quer que fosse.

A semana passou mais rápida que o tormento. O oratório continua montado, cada caixinha um santo pago. Continuo rezando, pedindo para tingir os corações de verde e amarelo. Isso não diz respeito a patriotismo nenhum. Verde e amarelo para esperançar a alegria.

Se as cores resolvessem os problemas da vida, teria baldes de tinta no quarto de dormir. Nos dias tumultuados, banhos de branco; nos mais tristes, amarelo; para atrair a pessoa amada, vermelho; e para dias de seriedade, marrom. Mãos na cabeça só para tentar apertar alguns parafusos. Tentativa inválida: a cabeça não tem parafusos, e as cores são distrações. As cabeças, por menores que sejam, cabem infinitas coisas, inclusive todas as mentiras não ditas e as fórmulas para destruir o mundo, e isso não tem nadinha a ver com mágica.

Hora de desfazer o oratório. Apenas as indústrias farmacêuticas estão se curando. Faltam dois dias para se entupir de poeira, pegar queimaduras do sol, chuvas carregadas de veneno, os barulhos dos carros e motos atropelando o silêncio.

Poucas árvores no caminho. Mão na testa como se estivesse batendo continência: é para aliviar o sol na cara e tentar enxergar o horizonte, para derrubar cada santo pago.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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