Um dos pontos altos de um (a) escritor/escritora é a capacidade de dizer muito valendo-se de (muito) pouco. Concisão. Definitivamente é uma das mais importantes características da escritora francesa Annie Ernaux.
Na obra O Jovem, escrita entre 1998 e 2000, mas publicada no Brasil apenas em 2022, menos de cinquenta páginas, o leitor/a leitora se depara com uma narrativa nada simples para uma sociedade preconceituosa: o relacionamento de um casal com trinta anos de diferença entre eles.
Quem é o mais velho dessa relação? Ela. O desejo feminino, o corpo, a diferença de idade e de classe social, o papel da mulher na sociedade francesa dos anos 90, a memória (individual e coletiva) são algumas das temáticas presentes nesta narrativa.
Para abrir a obra, um aviso-confissão: “Se não escrevo as coisas, elas não encontram seu termo, são apenas vividas”. Ou seja, não basta viver, é necessário escrever para alcançar a completude.
No início da história ficamos sabendo que um estudante, durante um ano, escreveu para a autora. Cinco anos depois, ambos tiveram uma “noite inapropriada”. O motivo? Ele tinha uma namorada? Por que tinha vinte quatro anos e ela cinquenta e quatro? Por que eram de mundos diferentes? Quem sabe tudo junto e misturado.
Após a “noite inapropriada”, uma frase chama minha atenção: “Muitas vezes fiz amor para obrigar a escrever”. Atire a primeira pedra a mulher que não fez amor por obrigação! Neste caso, a narradora almejava ter um orgasmo, “a mais violenta de todas as esperas”, ao menos para o gênero feminino, para que sua imaginação pudesse fluir e, assim, ela pudesse escrever. No fim das contas, ela queria ter certeza de que não havia “orgasmo mais intenso que a escrita de um livro”.
Como estamos falando de uma experiência subjetiva que varia de pessoa para pessoa, a de Ernaux é pelo “processo de escrita de um livro”, motivo pelo qual ela convida A. para uma taça de vinho na casa dela depois de terem jantado em um restaurante, onde ele permanecera mudo “praticamente o tempo todo”.
Ernaux tem esse poder. Antes de ler a obra, imaginava que a autora fosse se concentrar (primordialmente) no julgamento da sociedade em torno do relacionamento do casal. Para minha surpresa, a relação entre ambos foi o gatilho, tal as madeleines de Marcel Proust, para que Annie retornasse às condições sociais que marcaram sua infância e juventude: “Ele era o portador da memória do meu mundo de origem. (…) Ele concretizava o meu passado. Com ele eu percorria todas as épocas da vida, da minha vida”.
Aos domingos, quando chovia, eles ficavam embaixo do edredom, acabavam dormindo, ou cochilando. Em meio ao silêncio, ela parecia ouvir as vozes de imigrantes que passavam pelas ruas. É como se ela fosse transportada de volta aos domingos em Y, ali pertinho da mãe, que adormecia de exaustão sobre a cama após o almoço.
Em outro momento, diante do desconforto na casa de A. – “A geladeira velha e desregulada congelava as folhas no recipiente de salada” – ela se lembrava das condições precárias que vivera nos primeiros anos de seu casamento enquanto ainda era estudante.
Annie e A. só frequentavam cafés de jovens – “o Au Bureau, o Big Ben”. Comiam no “supermercado Jumbo”. A rádio preferida dele era “Europe 2”. Todas as noites assistia na tevê a Nulle Part Ailleurs”. Quando A. encontra um conhecido na rua, a narradora conta que permanecia mais afastada sob os olhares furtivos da pessoa. “Me fez perceber que éramos mais inaceitáveis que um casal de homossexuais”. Depois ela ficava sabendo de quem se tratava. De vez em quando, A. mostrava de longe algum de seus professores da faculdade de letras. “Ele me arrancava da minha geração, mas eu não pertencia à dele”.
Como se não bastasse, A. era ciumento. Chamava-a de “patroa” ou “mãezona”. Nunca havia votado, porque “Não acreditava ser possível transformar qualquer coisa na sociedade(…)”, diferentemente de Annie que, em determinado momento da narrativa confessa: “Era impossível, de fora, esquecer que vivíamos essa história debaixo do olhar da sociedade, o que eu aceitava como um desafio para mudar as convenções”. Absurdamente, vivemos em uma sociedade onde o tradicional é o homem ser mais velho do que a mulher. Quando o contrário acontece, a mulher é execrada pela sociedade.
Durante esse relacionamento, Annie começa a escrever um de seus mais elogiados livros: O Acontecimento (1963) – em que narra um aborto ilegal aos 23 anos de idade. “Quando mais eu avançava na escrita desse acontecimento que tinha se passado antes mesmo do nascimento dele, mais sentia um desejo irresistível de terminar com A. Como se eu quisesse liberá-lo e expulsá-lo, assim como eu tinha feito com um embrião mais de trinta anos antes”.
O Jovem é uma obra aparentemente simples que, em poucas páginas e numa linguagem fluída e envolvente, possibilita o leitor/a leitora refletir sobre temas como os afetos entre pessoas de gerações e classes sociais diferentes, envelhecimento, tempo, memória e preconceito.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
