E se todo adeus fosse o primeiro passo para você se libertar das dores que te aprisionam, o que ou a quem você daria adeus?
No caso da personagem Júlia Terra, protagonista da obra Pequena coreografia do adeus (2022), da escritora paulistana Aline Bei, ela se despediria (e assim o fez) de um pai ausente e de uma mãe violenta. Muitos de nós associa a despedida como algo ruim, perda e separação. “Despedir” é um verbo que vem do latim “dis-expedire” e significa soltar, colocar-se em liberdade. É um catalisador para o fim de um ciclo e o início de outro.
Jean-Paul Sartre outrora disse que “O homem está condenado a ser livre”. É verdade que todos nós queremos ser livres, mas nem todos nós conseguimos. Liberdade é um processo doloroso. Será que estamos prontos (as) para as responsabilidades e consequências que ela nos traz?
Pequena coreografia do adeus, finalista do Prêmio Jabuti e do Prêmio São Paulo do ano de 2022, é um desses livros que fazem o coração do leitor acelerar à medida que acompanhamos o bailado da protagonista Júlia marcado pelo silêncio, pela violência e pelo abandono.
Assim como Pequena coreografia do adeus (2022) em O peso do pássaro morto (2017), Aline Bei coloca o leitor em contato com experiências femininas de dor, de solidão, de ausências, de frustrações. Discute temas como busca pela identidade, o processo da escrita, maternidade, violência física e psicológica, etc.
Mas se você pensa que se trata de uma leitura triste, está completamente equivocado (a). A história de Júlia Terra, que poderia ser a de qualquer uma de nós, é uma narrativa de resistência, de amor próprio e da força que arrancamos de nossas entranhas para recomeçar.
O livro traz uma epígrafe de Juan Gelman – um dos poetas argentinos mais importantes do século XX – vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura, conhecido como o “poeta dos olhos tristes”. Em seguida, uma dedicatória: “para todos aqueles que procuram uma / Casa dentro de casa / em especial aos que procuram / desesperadamente”. Buscar a si próprio (a) é um processo de autoconhecimento, de introspecção e de identidade.
Pequena coreografia do adeus (2022), narrado em primeira pessoa, se passa em três momentos: Júlia, Terra e Escritora. No primeiro, conhecemos uma menina de idade não definida que mora dentro de uma casa inóspita – “para você derramar o seu amor / uma terra infértil, / não chove / pelo contrário, o sol torra cada pedaço de vida de um jeito / que não sobra nada no horizonte…” – em que os pais (aos gritos) estão prestes a se divorciar.
Pelo menos o barulho exaltado das vozes era melhor do que o silêncio de um ambiente escuro. É verdade que a Tv da cozinha permanecia ligada, mas ao somar o vazio da protagonista e o vazio da mãe dela (Vera), sempre “ocupada com as demandas emocionais da própria existência”, resultava uma dor infernal, em especial no corpo de Júlia. Tudo era motivo para ela apanhar… “as surras que eu levava / eram as surras que a minha mãe levou / em looping / na minha pele, na pele dos filhos que ainda não tenho”. É provado que mulheres praticam uma violência doméstica diminuta em relação aos homens. Ela é mais direcionada para as crianças e os adolescentes.
Entre um pai (Sérgio) que não reconhece mais a mulher (Vera) com quem se casou e se sente insatisfeita com o ritmo de sua vida, sobra Júlia, uma criança que aprende a viver à medida que a vida acontece, ou seja, “aprende na marra”. Quanto mais Júlia aprende, ela busca saber quem ela é.
A busca pela identidade da protagonista é uma “pequena coreografia do adeus”, talvez por isso a autora tenha escolhido contar essa história através de versos, em que ela deixa ir sua infância, sua adolescência, o luto de não ter o amor dos pais etc. Para se manter inteira Júlia se despede da imagem da família unida e amorosa que ela via as outras pessoas terem.
No segundo momento do livro – Terra – encontramos Júlia mulher, independente, trabalhando num café e morando sozinha em outra casa: o quarto de uma pensão que ela sente como uma “continuação do meu [seu] corpo”. Ainda visitando a mãe e encontrando o pai eventualmente, Júlia sente como se o seu espírito “pudesse voar por essas paredes”.
Nesta casa-quarto há uma janela sempre aberta, uma cama que range, uma banheira com manchas, um espelho tão enferrujado que ela mal se vê e um copo com flores. Júlia gosta de vê-las desistindo da existência, pois à proporção que elas desistem, as flores vão segurando a vida pelo cabo. Não seria esse o papel das flores: depois de exalar beleza se recolher em si mesma? Júlia guarda as pétalas numa caixa de sapato e dias depois, encontra-as ainda mais belas e pergunta: “se as pessoas se despedem assim do mundo, doeria menos perder algo?”.
No último momento, Júlia escreve e se afirma como artista. De forma íntima e subjetiva, ela se apropria de si. Dar-se conta de que o seu diário não é um mero passatempo: a escrita é uma ferramenta de transformação e de poder. É o seu caminho para uma possível autoafirmação.
Pequena coreografia do adeus (2022) é uma dessas obras para serem lidas e relidas para que possamos pensar nas muitas Júlia(s) que existem perto ou dentro de nós.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
