Planejar a cidade com seus construtores

É preciso construir a cidade dialogando com seus construtores. O esquartejamento — ou divisão socioespacial — das cidades reflete, necessariamente, as relações de poder e a divisão do capital. Os marcos legais que preveem a gestão compartilhada do planejamento urbano ainda precisam ser consolidados, e isso depende da insurgência dos movimentos sociais. O modelo viciado das políticas públicas de cima para baixo continua operante.

Criar mecanismos que imponham um outro olhar à gestão pública é uma necessidade histórica. Isso pode ocorrer de diversas formas e em distintas circunstâncias. O diálogo é um dos caminhos, mas não é o único, nem sempre o mais eficaz. A história tem demonstrado que os avanços e as conquistas são resultados da luta constante, marcada por interesses contrários e antagônicos entre classes sociais distintas. Esses conflitos acontecem em linhas invisíveis, em alguns momentos, e declaradamente demarcadas, em outros.

Em tempos de emergência climática, o planejamento urbano deve estar na centralidade política dos movimentos sociais. É nas cidades que se aprofundam, cada vez mais, as contradições entre capital e trabalho, capital e espaço, capital e meio ambiente.

Os marcos legais sobre a gestão compartilhada do planejamento urbano são uma argumentação política e jurídica, mas requerem a pressão e a articulação de amplos setores organizados da sociedade para serem efetivados.

O planejamento urbano exige mais que boa vontade e atendimento das reivindicações populares. Isso porque a boa vontade e as reivindicações populares podem estar nutridas de um olhar cego, capaz de promover problemas catastróficos ao meio ambiente e à infraestrutura urbana. Nesse sentido, a ciência e a tecnologia devem conduzir uma visão integrativa de cidade que promova qualidade de vida e redução dos impactos ambientais.

O planejamento urbano deve frear iniciativas imediatistas que atropelam a escuta da população e a análise dos impactos ambientais, a exemplo da política eleitoreira do asfalto ou dos equipamentos arquitetônicos e urbanísticos do padrão “copia e cola”.

Outro aspecto a ser considerado nas intervenções urbanas são os próprios mecanismos de organização e de luta do povo, que dão a bússola das demandas sociais e das particularidades dos lugares.

Conciliar utopia, ciência e a promoção da saúde física, mental e espacial deve ser a argamassa que deve se soma ao protagonismo dos construtores de cada paisagem urbana, cultural e social. O planejamento urbano é o cuidado necessário para o prolongamento da vida no planeta Terra.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *