Estiquei a mão para pegar a caneta e recuei para observar a cor do esmalte nas unhas. Adoro admirá-las após a ida à manicure, sinto minhas mãos elegantes e acredito que a cor do esmalte diz muito sobre meu humor durante a semana.
Permaneço observando e me pego lembrando de quem herdei o formato das minhas unhas. Não foi dela, mas dele. Penso no quando é reducionista acreditar que apenas um formato seja o suficiente para remeter ao que realmente representa alguém como pessoa. E dizer: “ela é igualzinha ao pai, puxou até o formato das unhas”.
Posso ser, inegavelmente, filha dele, mas as tramas da minha carne foram tecidas por todas elas, as mulheres da minha vida.
Minhas mãos precisas, ligeiras e firmes, que escrevem, costuram, atiram, acariciam e batem foram construídas pacientemente por outras que, com as mesmas características, seguraram as minhas e me guiaram em uma infância rica de amor e ensinamentos. Com elas venço desafios e seguro, agora, aquela a quem tenho o prazer de mostrar o mundo, com a ajuda inestimável de todas que vieram antes e de tantas outras que estão comigo agora.
Com os olhos que correm o mundo e atentamente invadem a alma do outro, percebo e retribuo o que elas sempre apontaram como pilares da vida: a bondade, o amor, a felicidade e a compaixão. E, através deles, costumo transbordar com o que há de mais genuíno e nos transforma em humanos: a emoção.
Os pés grandes e de passadas largas foram direcionados para alcançar meus sonhos, embalados em nossas conversas e soltos no ar para que, quando eu crescesse, pudesse, com todas as lições recebidas, alcançá-los e superar todas as dificuldades.
Minha fome foi e ainda é saciada pelas mãos de muitas, nem sempre unidas pelo vínculo de sangue, mas sempre ligadas pela generosidade e vontade de vencer e viver. Nesse caso, não falo apenas de quem deu ou preparou o alimento, mas também daquelas que no passado e ainda no presente se sacrificaram para me manter de pé.
Com a fé não poderia ser diferente. Não me refiro a acreditar apenas Naquele que habita entre nós, mas na construção da certeza que sou vencedora, forte e corajosa para honrar todas as minhas ancestrais.
Feliz Dia da Mulher!
Que a nossa força, coragem e sensibilidade seja uma forma de honrar nossas antepassadas e, além disso, combustível para a transformação de um mundo justo e digno para todas nós.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.
