Lutas e metamorfoses de uma mulher

Quantas vezes enxergamos nossas mulheres, em especial mães, avós ou companheiras apenas pelas funções que elas exercem vinculadas ao cuidado? 

No Brasil, a terminologia ‘mulher guerreira’ é com frequência usada para romantizar a sobrecarga e cansaço extremo, excesso do trabalho invisível e repetitivo sob o rótulo “do lar” e eventual apagamento de sonhos individuais em prol da família. 

O que resta quando se retira essa máscara de sacrifício?  

Em Lutas e metamorfoses de uma mulher, o jovem escritor contemporâneo francês Édouard Louis com seu marcante estilo de auto ficção ou literatura autobiográfica, provoca essa reflexão de maneira ágil; despindo a figura da sua própria mãe da imaculada santidade ordenadora das rotinas, bem distante do mito da mulher perfeita, em plena na periferia rural da França, para nos revelar essa pessoa que teve sua individualidade soterrada por obrigações, violência, pobreza, sociedade e pelo patriarcado sob o rótulo atávico de destino inescapável. 

“Como a vida dela estava privada de acontecimentos, um acontecimento só podia se dar através do meu pai. Ela não tinha mais história; sua história só podia ser, fatalmente, a história dele “.

A narrativa é crua, curta e urgente, A obra não chega a 120 páginas: é a biografia da mãe do autor. O enredo abrange a rotina da infância e juventude de Louis até os dias atuais: a convivência conflituosa com sua mãe, desde antes dele ser concebido no corpo dela e ainda sob o mesmo teto por quinze anos de privações econômicas e emocionais.

O rapaz franzino, com “trejeitos femininos, segundo entre quatro irmãos, filho dessa mulher que só existe exausta, e pai rude que desempenha trabalho braçal mal remunerado fabril, perpassa o leitor com uma desconfortável identificação em alguns pontos, eventualmente, se percebe a persona da mulher apagada que está sempre presente no cotidiano, a cobrança desigual sob o gênero que por fim não difere tanto das referências brasileiras.

Louis foge do que se espera desse tipo de obra, descrevendo a amargura da mãe sempre cansada no cenário da escassez de recursos em meados dos anos 90 e início de 2000, enclausurada numa rotina de incessante servidão doméstica.

Com clareza, o autor mostra que a opressão silenciosa de gênero não é um conceito abstrato, mas algo gritante que se manifesta na forma como uma mulher se veste, caminha, se expressa e, eventualmente, decide queimar tudo e recomeçar.

Partindo da descrição de uma fotografia encontrada a esmo da loira de semblante sereno e sorriso tímido que ele jamais conheceu, sua própria mãe, antes de ter o corpo metamorfoseado para abrigar as vidas que gerou, pergunta-se: E quem conheceu? Eis o paradoxo!

Louis vai audaciosa e pertinentemente expondo que a pobreza não é mero dado estatístico, mas uma força física que corrompe a existência, endurece os sentimentos, molda o corpo, a linguagem e as escolhas das mulheres, onde ‘todas as realidades mudavam de sentido’, situação pouco distante das periferias da nossa pátria mãe gentil. 

Para além das metamorfoses físicas, algo que toda mulher vivencia durante a vida, independente ou não da maternidade é a mudança, tido como ato de rebeldia, que em nada se alinha ao conceito do feminino, como se concebe em senso comum, submisso e silencioso.

É um dos atos mais radicais, quando a mãe de Louis deixa que o silêncio e a pobreza não a definam como destinos sociais, tampouco biológicos. Ela muda o corte de cabelo e passa a usar maquiagem, a sair, fumar, muda de cidade, opta por si mesma.

O autor enxerga a figura materna como lente para entender justiça social e seu revés.

Marcante como o olhar de um filho maduro ameniza sua mãe, tendo sido um jovem incompreendido, a humaniza enquanto vítima de um sistema que a silenciou por duas décadas.   

“Ela me contava as histórias de família ou dos vizinhos, mas eu não ouvia. Reclamava: Para com esse falatório! Não via que ela falava para preencher o tédio, a reprodução exata das horas e dos dias imposta pela vida com meu pai, que para ela, como para mim anos depois, contar sua vida era o melhor remédio que havia encontrado para suportar o peso de sua existência”.

“Eu adoraria que esta história da minha mãe fosse, de algum modo, a morada onde ela pudesse se refugiar”.

Sobre a autora:

Meyreélen Lisieux Alves

Mãe, idealista, ávida leitora. Advogada especializada em direito público com extensão em justiça e práticas restaurativas. Furtiva escritora abscôndita e estudante de filosofia clássica

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