Chamou-me de mulher e te servi à mesa
Chamou-me de puta e te servi à cama
Te servi remédio, alimento, peito, vagina, útero e mãos
Te servi pernas, filhos, diversão e orgia
Te servi aos olhos, ao corpo, à gula e aos dedos
Te servi de tapete
Fiquei de joelhos para que te fizesses grande
Calei para que fosses ouvido
Sangrei para satisfazer ao teu desejo de posse
Limpei tua baba e teus excrementos
Lavei teus pés
Engomei tuas camisas para gozares com outras
Asseei a casa, os filhos
Silenciei no momento exato em que esfregavas meu rosto no chão
Fui vaso para descarregares todas as podridões do mundo
A raiva, o sêmen
Fechei o zíper da tua calça no caixão
Encolhi
Hoje desço as ruas em desalinho
E vivo sob os escombros dos meus desejos de outrora.
Sobre a autora:

Dina Melo
Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.
