A contribuição das mulheres para a literatura cearense vem aumentando com o passar dos anos. É preciso que se diga que elas sempre escreveram, mas seus escritos ficavam guardados nas gavetas.
É importante que leiamos cada vez mais essas mulheres, que as escutemos em saraus, que suas obras sejam adotadas nas escolas e que estejam nos clubes de leituras, que têm crescido nos últimos tempos.
Mais importante ainda é que tais obras possam ser encontradas nas bibliotecas. A presença dos livros de mulheres neste espaços do saber é essencial não só como uma reparação histórica ao silenciamento a elas imposto durante séculos, como também para garantir a diversidade cultural e promover a formação crítica dos leitores.
A literatura feminina, em especial a que é produzida no estado do Ceará, desafia as estruturas patriarcais, expõem narrativas de resistência e mostra perpectivas próprias sobre a cidade, o sertão, a política, etc.
Por falar sobre a literatura cearense, quero destacar a literatura produzida na região do Cariri, já que se trata de uma região que cultiva uma forte identidade cultural, com sua tradição oral, poesia popular e o cordel.
Destaco a presença feminina da escritora Fátima Teles, educadora, cordelista, autora de várias obras, dentre elas A lenda da Pedra da Batateira (2020), uma narrativa popular presente no imaginário caririense – há também uma animação/curta-metragem sobre a lenda produzido pela Fundação Casa Grande. A obra, com vinte e nove páginas, tem ilustrações de João Alves e difundeo conhecimento de como nasceu a região. Segundo Fátima Teles a ideia surgiu, quando escreveu “A cidade que veio das águas”, que retrata a lenda do açaí. “Percebi que as crianças são receptivas, curiosas e atenciosas para as histórias trazidas pela nossa ancestralidade, e também eu quis iniciar a minha escrita sobre os costumes, histórias e lugares que permeiam a nossa região tão linda e rica culturalmente”.
Outra escritora potente nascida no Crato é Zulmira Alves Correia, vencedora do 5º Prêmio Cepe Nacional de Literatura, na categoria Poesia, Cartas de Maria, publicada em 2020. A obra é uma homenagem a suas antepassadas, como sua avó e bisavó, que inspiraram Zulmira com sua força e resistência. O livro, com uma linguagem sensível e fluída, traz as confidências de uma filha dirigidas à mãe, que ficou na antiga morada, como no trecho:
“[…] Tu, sempre em teu silêncio, me confidenciou uma vez
sobre a grandiosidade do mundo,
mas hoje, sob meus olhos de viajante, vejo o quão gigante ele é.
Trilhei no lombo de um cavalo estradas de poeira, lá pelas bandas de Exu,
foi minha primeira parada.
Depois para o Crato.
As terras são escuras e os rostos queimados de sol ardente.
Ninguém olha em meus olhos.
Será que eles sabem da verdade?
Que fugi de ti, minha pobre mãe?”
– Zulmira Alves Correia, As cartas de Maria, cap (I).
Quantas mulheres já precisaram sair do seu espaço para vencer, ser feliz, ou mesmo sobreviver às intempéries? A obra relata, sob o olhar feminino, a dura vida no sertão do Cariri, infortúnios, paixões e morte.
São muitas mulheres escritoras caririenses esperando para serem lidas. A lista é grande. A importância da leitura dessas mulheres contribui para dar visibilidade não só a elas, mas a própria região, considerada um “oásis no sertão”.
Referências:
CORREIA, Zulmira Alves, Cartas de Maria, Cepe, 2020.
TELES, Fátima, A lenda da Pedra da Batateira, 2020.
Sobre a autora:

Isabella Correia Ribeiro
Estudante do curso de biblioteconomia, bolsista do CNPQ no projeto “Mapeamento de produções de autoria feminina na região nordeste no período de 2000 a 2024”.
