Desde os tempos imemoriais escutamos: “uma mulher precisa estar bem acompanhada”! Ou seja, em um relacionamento saudável com alguém que agregue amor, carinho e respeito. Vamos combinar que não tem sido fácil? O índice de feminicídio aumentou em 316% e 97% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer algum tipo de violência.
Via de regra estou sempre bem acompanhada de mim mesma, por isso, me trabalho para ser uma boa companhia: valorizo minha presença, transformo solidão em solitude e, acima de tudo, escrevo.
Embora escrever seja um ato fisicamente isolado, ele é forjado por uma multidão de vozes exteriores e interiores, fatos vividos e imaginados, memórias. A escrita, para além de uma ferramenta de resistência, é um ato de perpetuação da memória individual e coletiva.
A francesa Marguerite Duras – autora da obra Escrever – afirmava que é preciso solidão para escrever, sem ela o texto não se produz. “A solidão não se encontra, se faz. A solidão se faz sozinha. Eu a fiz”. Eu a compartilho. Eu a escrevo. Eu a tenho como uma companheira fiel.
O certo é que na ultima sexta-feira do mês de março, eu deixei a solidão em casa descansando e fui ao teatro bem acompanhada com Dina Melo e Raynara Andreza. No Centro Cultural (CCBNB), encontramos as escritoras Virgínia Woolf e Vita Sackville-West. A Cia Bravia trouxe para Juazeiro do Norte o espetáculo “Vita & Virgínia”, que explora a relação amorosa e intelectual que uniu a criadora de Um teto todo seu (Virgínia Woolf) e Toda Paixão Exaurida (Vita Sackville-West).
Antes de falar da peça permitam-me apresentar essas duas mulheres que atravessaram minha vida ainda no Curso de Graduação em Letras. Comecei lendo Virgínia Woolf pelos olhos de Clarice Lispector: ambas usam técnicas narrativas como fluxo de consciência e monólogo interior das personagens, em geral, mulheres. Tanto para Woolf como para Lispector, a arte surge como uma atividade “compensatória” para as limitações sociais, políticas, educacionais e amorosas impostas por séculos às mulheres.
Clarice me apresentou Virgínia e Virgínia me apresentou Vita Sackville-West – “Não há nada mais adorável na vida do que a união de duas pessoas cujo amor uma pela outra cresceu ao longo dos anos, desde a pequena semente da paixão até uma grande árvore enraizada” – romancista, poeta e paisagista inglesa, ganhadora do prêmio Hawthornden Prize élo, pelo longo poema The Land (1927). Em 1933, tornaria a vencê-lo com Collected Poems, tornando-se a única autora a ganhar o mesmo prêmio duas vezes.
Woolf e Vita conheceram-se numa festa em 1922 e foram se aproximando à medida que se encontravam nos mesmos eventos sociais. Virgínia admirava o espírito livre de Vita; já esta, assombrava-se com a inteligência e a escrita de Woolf. Os traumas de infância também aproximaram essas suas mulheres que se valeram da literatura para abordar a condição feminina, a psique humana e questões de gênero.
Retornando a peça, que peca por ser um pouco mais do que uma hora (merecia mais tempo), um cenário lindo, um texto forte e poético, foi montada com base nas cartas e nos diários trocados entre ambas as escritoras. No palco, Marina Brita (Vita Sackville-West) e Liliana Brizeiro (Virgínia Woolf) trocam cartas e carícias, além de mostrar ao espectador como nasceu Orlando: uma biografia, publicada no ano de 1928, considerada por Nigel Nicolson como “a mais longa e mais encantadora carta de amor de toda a literatura”.
Essa biografia, que foge aos padrões do que conhecemos – relato da história de vida de uma pessoa com o compromisso único de contar a verdade – acompanha Orlando, um aristocrata inglês do século XVI, desde sua adolescência até os trinta anos de idade, por salões luxuosos, poemas, paixões e viagens. Em uma delas, Constantinopla, atual Istambul (Turquia), Orlando acorda em um corpo de mulher.
Orlando: uma biografia (1928) foi registrado no diário de Virgínia Woolf no dia 5 de outubro do ano de 1927: “E instantaneamente os típicos mecanismos de excitação inundaram a minha mente: uma biografia começando em 1500 e continuando até ao presente, chamada Orlando: Vita; apenas com trocas de um sexo para o outro”.
Além de Orlando, um marco na literatura sobre amor lésbico, a relação das duas também inspirou outros trabalhos de Woolf, como Ao Farol (1927), uma obra não fácil de ler, sobre as longas ausências de Vita em virtude das viagens dela.
O espetáculo “Vita & Virgínia” captura a essência poética, amorosa e sexual de duas mulheres que usaram a escrita para se colocar no mundo. Virgínia Woolf e Vita Sackville-West inspiraram (e seguem inspirando) as que vieram depois por sua escrita profunda e complexa, por sua ousadia de se entregarem ao amor espiritual e carnal. Com Vita & Virgínia, com Dina e Raynara sigo sempre acompanhada!
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
