Falta

No meu peito tem uma falta

Ela irrompe abrupta, inesperada, imensa e doída

Faz tanto barulho que não consigo seguir

É preciso que eu pare, me volte pra trás e a escute

Ela grita desesperada para que outro a console

Lance flores, carinhos, palavras

E eu lhe digo que não, não há falta em mim que possa ser preenchida por alguém

Precisamos nos acostumar uma à outra

E lhe dou as mãos para que derrame suas lágrimas, chão onde repouse seus pés feridos, abraço pros seus ombros caídos

Enlaçamos nossos dedos

Deitamos juntas

Mergulho no seu colo

Sinto o som da sua respiração ofegante

Apalpo a dor que carrega

Ela se espraia em mim

E eu sou toda falta, toda vazio

Às vezes ela se camufla nos banhos de cachoeira, nos entardeceres, nos beijos, no filho que nasceu, nos corpos entrelaçados

E esqueço seu nome

Canto

Gargalho

Deslizo tranquila com o peito cheio de estrelas

Até que ela, sorrateira, reacende vívida

Uma brasa cavando um buraco no meu peito

Abrupta, inesperada, imensa e doída.

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