Em 2006, fui das pessoas que assistiu a jovem Andy Sachs conseguir seu primeiro emprego na Runway Magazine, a mais importante revista de moda de Nova York.
E, como milhares de telespectadoras, acompanhou os percalços pelos quais ela precisou passar para ser a assistente da editora-chefe da revista, Miranda Priestly, (inspirada em Anna Wintour, lendária editora-chefe da Vogue norte-americana), a dama de ferro do mundo fashion, uma mulher muito elegante, detalhista, exigente e com a língua afiada. Alguém ao mesmo tempo temida, imponente, odiada e admirada. Eis a complexidade do ser humano.
Baseado no livro de Lauren Weisberger, O Diabo Veste Prada, que nunca foi um filme só sobre moda, é uma daquelas comédias dramáticas que nos mostra o crescimento pessoal e profissional de uma mulher (Andy) no exigente mundo da moda. A película, que teve um orçamento de US$ 41 milhões, arrecadou US$ 300 milhões em todo o mundo conquistando o 12º filme de maior bilheteria do mundo em 2006.
E por que o diabo veste prada? Ora, quando os homens assumem os cargos de poder, eles são considerados geniais por serem autoritários, por submeterem seus subordinados a jornadas extenuantes de trabalho fazendo-os abdicar de compromissos pessoais etc. Quando são as mulheres…
Em 2026, uma das mais emblemáticas narrativas contemporâneas sobre a força das mulheres nos bastidores da moda, ganha uma continuação O Diabo Veste Prada 2, reunindo parte do elenco original (Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci). Adrian Grenier (Nate), antigo namorado de Andy, não apareceu nesta nova versão, já que agora o foco não são mais os relacionamentos pessoais. Mesmo assim, Sachs conhece um possível novo pretendente. Quanto à direção, permanece David Frankel, enquanto o roteiro é novamente assinado por Aline Brosh McKenna.
Como nem só de nostalgia vive o Hollywood, novos nomes integram o elenco como: Kenneth Branagh, Lucy Liu e Justin Theroux para ampliar os horizontes da história, que se passa em um novo momento da indústria da moda, focada na sustentabilidade, tecnologias sociais e em um consumidor mais exigente.
Se no primeiro filme o foco era no amadurecimento pessoal e profissional de Andy, no segundo; a narrativa se concentra na própria sobrevivência da indústria fashion, agora dominada pela era digital. Antes, símbolo de status, a moda transformou-se em um espaço de disputa ética e cultural, já que para além da necessidade de vestir, ela funciona como uma linguagem visual que reflete e questiona valores sociais, econômicos e políticos.
Além disso, convenhamos que em duas décadas o público também mudou. Chegou à geração Z buscando experiências novas, narrativas reais e intensas. Não bastasse, há muitos streamings, ou seja, o filme precisa ser uma experiência transformadora para levar o expectador a sair do conforto de sua casa.
Se o público mudou, as personagens também, como é o caso de Emily Charlton, que de assistente ambiciosa em O Diabo Veste Prada 1, assume uma posição de poder na versão 2, podendo contribuir para mudar os rumos da Runway Magazine. Difícil não lembrar a obra Pedagogia do Oprimido, do educador Paulo Freire, quando ele diz: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”, ou seja, oprimidos tendem a reproduzir a violência sofrida. Aqui, antigas subordinadas (Emily Charlton) tentam colocar de escanteio seu antigo algoz, Miranda, outras preferem salvar (Andy Sachs).
Por falar em Miranda Priestly, antes símbolo absoluto de poder, agora percebe que seu castelo pode ruir a qualquer instante. Já Andy deixa de ser uma assistente desengonçada e pouco ligada ao mundo da moda, transforma-se numa profissional de sucesso (é demitida no dia em que recebe um importante prêmio jornalístico e é contratada sem Miranda saber) para escrever artigos especiais para Runway Magazine. Embora Andy não seja mais a mesma, nem seu guarda-roupa, seus valores éticos permanecem os mesmos.
O Diabo Veste Prada 2, que em único final de semana já arrecadou US$ 233 milhões de dólares, é um daquelas narrativas inteligentes, nostálgicos, irreverentes, reflexivas, com um cenário lindo e looks glamourosos, que olha para trás e segue em frente.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
