Decepei meus pés numa tarde ensolarada de setembro. Resultado das incontáveis vezes em que troquei meus sapatinhos vermelhos, tecidos por mim, por sapatos pretos de verniz, entregues pela velha senhora da carruagem dourada, que me abordou, tantas vezes, nas ruas da vida. Tão atraentes, a carruagem e os sapatinhos pretos, mas que, na verdade, representaram armadilhas e emboscadas que capturaram minha essência, à semelhança da menina d’Os sapatinhos vermelhos, um dos contos do livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estès.
Trocas tolas, hoje sei, que me levaram a vaguear, tantos anos, sangrando. No entanto, diferente do conto, que termina na perda dos pés, um final chocante para alertar do alto preço que pagamos quando persistimos em condutas que nos afastam de quem somos verdadeiramente, hoje estou tecendo novos sapatos para os meus pés que crescem lentamente.
Numa dessas trocas desastrosas, afastei-me dos livros.
Mas antes, muito antes, por volta dos três anos de idade, deu-se nosso primeiro encontro, quando ganhei três reluzentes livros da minha mãe. Ainda tenho um deles, rabiscado, manchado, sujo, frutos da passagem do tempo e de tantas mãos, as minhas e as da minha irmã, que o acariciavam e folheavam incontáveis vezes.
Estes foram os únicos livros que ela me deu, mas foram os mais importantes, porque abriram os portões de um mundo encantado, em que personagens, enredos, sentimentos, realidades e invenções se entrelaçam, bailando leves e brilhantes à minha frente.
Após o presente, fomos morar em Ibiapina, onde não existiam livrarias. Havia, entretanto, uma biblioteca municipal. Um prédio antigo, na rua principal, o qual alcançávamos subindo dois lances de escada. Não recordo com que idade passei a frequentá-la, mas a memória me traz a lembrança de passear nos seus corredores, tocando o dorso dos livros, da felicidade que sentia por estar naquele lugar tão macio para minha alma.
Não consigo voltar no tempo e lembrar os lugares nos quais eu lia. Posso imaginar que seria nos galhos do pé de urucum, onde brincávamos de casinha. Ou no chão varrido, embaixo da jaqueira, depois que casei, nos intervalos em que meu marido – meu primo Bruno – cuidava de nossa filha, minha irmã Diana.
Esse enlace afetuoso foiinterrompido de forma abrupta, pois, aos 13 anos, mudei de cidade e não havia biblioteca onde fui morar, período marcado pela frustração e pelo desejo. O único livro que tínhamos em casa era um dicionário, que eu folheava pra aplacar minha vontade de palavras, ávida por livros que ocupassem minhas tardes após voltar da escola. Nesse período, li “O crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz, que não recordo como me caiu nas mãos.
Voltei a ler com mais frequência quando fui morar com minhas tias, em Fortaleza, aos 15 anos, porque uma delas tinha alguns livros, paixão também compartilhada.
A partir daí vivi várias fases, com mais ou menos livros, em razão de diversas circunstâncias, até que, adulta, de forma consciente e deliberada, interrompi minhas leituras.
Retornei uns tantos anos após. A princípio, de forma lenta, pisando devagarinho, reconhecendo o terreno, um universo ao mesmo tempo familiar e desconhecido. Um desassossego, porém, foi crescendo de forma insidiosa. Como eu me pagaria por tamanho desacerto? Queria voltar ao passado, apanhar todas as palavras que ficaram pela estrada e correr para o presente, com todas grudadas no corpo e a saia farta de histórias.
Mais uma vez tive de me haver com meus atrasos. Propositais ou não, estão sempre me lembrando das minhas dívidas que, reconheço, são absurdas comigo mesma. Propositais ou não, levam-me a um lugar frio e desolado, no qual há um letreiro escrito “Arrependimentos”, onde vejo todos os espectros lamuriosos que me acenam de forma persistente.
Os sabedores das almas humanas, no entanto, aconselham-me a diminuir as visitas ao passado. Dizem que lá é terra deserta, onde posso me perder e permanecer. Dizem que preciso ficar bem aqui onde estou. Presente, o nome dessa estação. Por isso, botei um vestido bonito na alma e a sentei na calçada de casa, costurando com carinho os novos sapatos vermelhos para os meus pés pequeninos. De vez em quando, o querer aperta e ela espia o passado demoradamente, sente um amargor viscoso na língua, depois se repreende, volta devagar.
Há algum tempo, recebi de um amigo um apelido carinhoso, “a menina devoradora de livros”, em alusão ao título de um livro infantil. Sim, a menina que fui e que hoje corre dentro de mim ama o cheiro dos livros, o formato, as linhas, as capas, os lugares onde habitam. E, com seus pés pequeninos, já ensaia alguns passos trôpegos e vai sarando o coração.
Sobre a autora:

Dina Melo
Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.
