* Aviso para você que tem catsaridafobia: esse texto tem uma quantidade alarmante de baratas.
Era uma manhã daquelas que eu daria tudo para que caísse em um final de semana. Céu nublado. Muita chuva. E o dia que eu precisava trabalhar do outro lado da cidade. Não dava nem para reclamar muito. Afinal, tudo ainda podia piorar.
Saí de casa no horário previsto. Nesse dia não iria de carro, pois não tinha pago o seguro, e o medo de perder o veículo na chuva, em meio ao caos dos alagamentos de Fortaleza, era enorme. Além disso, como a escola que daria aula ficava muito longe, o melhor mesmo seria ir de ônibus, para garantir que não pagaria para trabalhar.
Cheguei à parada de ônibus e comemorei ao perceber que estava vazia. Esse é uma das pequenas felicidades do trabalhador. Sentei e esperei. Começou uma neblina fininha, mas com vento, daquelas chatinhas, do tipo que finge não molhar, mas, de repente, encharca.
O ônibus chegou, e consegui uma vaga para cada pé nos dois degraus que dão acesso aos bancos antes da catraca. Como desceria apenas no terminal, me tranquilizei com o fato de que, em algum momento, caminharia livremente até uma poltrona.
Mas que pecado me animar antes da conquista. Fui em pé, segurando com uma das mãos e me equilibrando entre os corpos que me sustentavam na grande lata cinzenta até o esperado Terminal do Antônio Bezerra. Naquele dia, para o meu azar, não consegui segurar apenas nas conexões dos tubos do pega-mão, na vã esperança de ficar com a mão menos infectada com germes e bactérias. Eca.
A essa altura, não tinha mais cabelo lavado e pele seca que se sustentassem. A conversão dos meus líquidos corporais em suor já havia comprometida toda a minha beleza, que, pactuemos, já estava abalada desde o momento em que acordei com total falta de carisma para sair de casa naquele clima e, ainda por cima, pegando ônibus.
Quando finalmente consegui descer, me deparei com um formigueiro gigante. Não. As formigas são organizadas e trabalham em conjunto. Eu me deparei, na verdade, com vários humanos lutando para provar quem tinha a maior necessidade dentro daquele universo e, por esse motivo, merecia disputar uma preciosa vaga em outra lata cinza para chegar ao seu destino final. Ou não. No meu caso, seria.
Meio suada, meio ensopada pela chuva, me confinei em uma vaga da enorme fila ziguezague para pegar o próximo ônibus. Mas, naquele horário, é necessária uma certa sagacidade para conseguir pegar uma vaga, pelo menos no primeiro degrau, com a porta fechando nas suas costas.
Certa de que não conseguiria, esperei, mufina, consciente de que pegaria o segundo horário do transporte. Economizando minha vitalidade que ainda enfrentaria dois turnos de alunos com energia equivalente a uma bomba atômica. Esmorecia ainda mais só de pensar.
Até que…
Enquanto olhava para o lado, julgando quem estava mais ou menos lascado que eu, senti um cheiro que liga um grande alerta na minha cabeça. Foi então que enxerguei uma mancha escura que se aproximava na água, junto com os pneus do ônibus.
Eis que…
Uma imensa onda de baratas. Sim, las cucarachas. Milhares dela surfavam em uma onda de lama que, calculando rapidamente, chegariam aos meus pés.
Com uma passada que, em qualquer situação normal, eu seria incapaz de dar, praticamente voei para me agarrar a um daqueles pilares de metal e concreto que sustentam o teto. Naquele momento, não teve como equilibrar o nojo e escolher onde tocar. Fiquei com a bochecha colada no cimento, abraçando aquele pilar como a minha única salvação.
A onda, que se formou pela energia dos pneus em movimento, arrebentou quase na altura em que eu estava. Logo, as passageiras que vinham unidas na maré, se dispersaram para todos os lugares.
Como um carrinho de fricção, alcancei a energia necessária para quase flutuar até o interior do ônibus e, sem querer saber onde eu pegava ou quem eu empurrava, consegui um lugar para terminar minha viagem.
No dia seguinte, achei que seria apropriado apostar nas baratas. Afinal, não é todo dia que se tem tão grande azar. O cheiro impregnado nas minhas narinas não me deixava esquecer aquela cena.
Ufa! Deu pavão.
E, assim, o Bicho garantiu o seguro do meu carro.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.
