Terça-feira, dia 09 de junho de 2026. Depois de quatorze horas de viagem, cheguei ao meu destino: João Pessoa. A missão é a mesma a que tenho me dedicado nos últimos anos: apresentar o projeto Blog Literário: Nordestinados a Ler.
O público-alvo dessa vez foi a turma do segundo semestre do Curso de Letras da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), cuja professora é doutora Luciana Calado, pesquisadora e idealizadora do projeto “Mulheres em cena: protagonismo das mulheres da cultura popular” – hoje renomeado “Mulheres em cena. Feminismos e Decolonialidade”, que desde o ano de 2019, tem buscado dar visibilidade à produção de mulheres nos mais diferentes gêneros literários.
Para além de apresentar o Blog Literário: Nordestinados a Ler, cadastrado na Pró-reitoria de Cultura da Universidade Federal do Cariri (UFCA), que há cinco anos tem incentivado à escrita entre jovens e adultos, já publicamos cinco Coletâneas de Textos, o projeto incentiva à leitura e discute a literatura de autoria feminina produzida na região Nordeste.
É sabido que o Nordeste é a terceira maior economia do país (atrás do Sudeste e do Sul), contudo, carrega a pecha de ser atrasada, subdesenvolvida, tendo nas praias seu maior atrativo. Terra de figuras históricas dotadas de força e de resistência – Bárbara de Alencar, primeira presa política do país, Rachel de Queiroz, primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras (ABL), Maria da Penha, símbolo da lei de combate à violência contra a mulher, entre outras.
Com base nestas figuras históricas, o Blog Literário: Nordestinados a Ler nasce com a missão de fazer a literatura circular. O recorte do projeto – escritoras nordestinas – é fundamental em um país, cujo cânone literário, ainda é dominado por homens brancos, heterossexuais do eixo Rio-São Paulo.
Abordar essa literatura é romper com um silenciamento histórico, pois durante décadas coube às mulheres o espaço privado, o cuidado com o lar e com a família. “Atrás de um grande homem”, sempre existia uma mulher lavando, passando e maternando.
A naturalização do papel da mulher, a entrada tardia no universo escolar/acadêmico, levou a hegemonia do gênero masculino em todas as áreas do conhecimento, destaque para o campo literário.
A produção literária de mulheres é vista com desconfiança pelas grandes editoras e pela crítica especializada, especialmente quando questionam as regras do que seria a boa literatura, ou discutem pautas como patriarcalismo e misoginia.
Para além de passatempo e entretenimento, é preciso compreender a literatura como um espaço de poder. Ela faz parte de um contexto social, logo, é um produto visível nas livrarias e nas feiras literárias, estudada nas escolas, discutida em congressos/simpósios e pesquisada nas universidades. Gera, para além da atenção da crítica especializada e do leitor, lucros para o setor livreiro. Incomoda governos conservadores e autoritário (recentemente a obra A bolsa amarela (1976), da escritora Lygia Bojunga, foi alvo de censura por parte de pais de alunos do Colégio Militar Dom Pedro II, Distrito Federal).
Voltemos à turma do 2º semestre de Letras da professora Luciana Calado. Como a disciplina é sobre “A Literatura de Viagem” e objetiva trabalhar as narrativas de deslocamentos – desde o Quinhentismo (Carta de Pero Vaz de Caminha) aos textos modernos – discutir sobre o processo de colonização em terras brasileiras etc., resolvi intitular minha apresentação de “Uma viagem pela autoria feminina no Nordeste brasileiro”.
Após minha apresentação, narrei o nascimento do Blog Literário: Nordestinados a Ler, expus suas áreas de atuação – escolas públicas da região do Cariri, programa na Web Rádio Cafundó, Spotify, Discussões literárias – fiz três convites aos estudantes: 1) Enviar textos (contos, crônicas, poemas, resenhas) para serem publicados no Blog; 2) Participar das discussões literárias – clube de leitura virtual, que acontece sempre no último sábado de cada mês, das 15h às 17h. Aproveitei para falar das obras escolhidas até o momento: abril, Boca do Mundo (2025), da escritora cearense Dia Bárbara Nobre; maio, Para não acabar tão cedo (2024), da escritora pernambucana Clarice Freire; junho, As conchas não falam (2024), da escritora sergipana Taylane Cruz. As demais obras podem ser encontradas no Instagram do projeto (@nor.destinados). O terceiro convite foi conhecer propriamente uma escritora do Nordeste.
No primeiro instante, projetei um mapa da região e os/as estudantes eram incentivados (as) a citar o nome de uma escritora de cada estado. Apenas dois nomes foram mencionados: a maranhense Maria Firmina dos Reis, autora de Úrsula (1859), considerada a primeira obra de autoria feminina brasileira, e a paraibana Anayde Beiriz, professora e poeta modernista, mas que ficou conhecida simplesmente como a “amante” do advogado João Dantas, ou a “cúmplice” das forças que levou a morte de João Pessoa, o então presidente da Paraíba (1928-1930).
Em seguida, por ordem alfabética fui apresentando algumas das escritoras por estado e tecendo comentários de suas respectivas obras:
Alagoas: Arriete Vilela – Lãs ao vento
Bahia: Rita Santana – Alforrias
Ceará: Socorro Acioli – A cabeça do santo / Jarid Arraes – Redemoinho em dia quente e Corpo desfeito / Raquel de Queiroz – O Quinze
Paraíba: Maria Valéria Rezende – Quarenta Dias
Pernambuco: Martha Batalha: A vida invisível de Eurídice Gusmão /Micheliny Verunschk: O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos
Maranhão: Maria Firmina dos Reis – Úrsula
Rio Grande do Norte: Nísia Floresta: Direito das mulheres e injustiça dos homens e Itinerário de uma viagem à Alemanha
Sergipe: Ananda Sampaio – Amor, fim de todas as coisas
Terminada essa viagem pelo Nordeste (autoras/obras), propus a leitura e o debate da crônica “Madrugada no ar”, Cecília Meireles, já que ela é uma das escritoras do período modernista que mais produziu crônicas de viagem, três volumes, em virtude de suas passagens por países da Europa (como Itália, Portugal e França), Américas e Oriente Médio.
Assim como o historiador Nicolau Sevcenko propunha a “Literatura como Missão”, eu proponho o Blog Literário: Nordestinados a Ler como uma ferramenta interdisciplinar, dialógica e interativa com o compromisso de dar visibilidade à produção literária de escritoras do Nordeste brasileiro.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
