Aprendendo com bell hooks

Cresci com a errônea ideia de que o feminismo era um movimento de ódio criado por mulheres (feias e bravas)  contra os homens.

Cresci com a ideia equivocada de que os homens cuidam e de que as mulheres são cuidadas. Eles são os provedores, às mulheres, as cuidadoras do lar.

Cresci ouvindo que “a mulher era o sexo frágil”, inadequado para assumir determinadas funções dentro de uma empresa.

Cresci  escutando que em “briga de marido e mulher não se mete a colher”. Se ela apanha é porque gosta.

Cresci sabendo que “por trás de todo grande homem, existe uma mulher”. Como é exaustivo crescer em um mundo marcado por verdades distorcidas, realidades mascaradas, relações superficiais e falta de diálogo entre pais-filhos, estudantes-professores.

Somente ao ingressar na Universidade, em torno dos vinte anos,  fui me dando conta de que sabia muito pouco, ou quase nada da vida. Não pela idade em si, mas por tudo aquilo que havia sido ensinada.

Aos poucos, compreendi que meu pai não era um “príncipe encantado”, que mulher pode ser o que ela quiser, que em briga de casal se liga para a polícia (180),  que por trás de um grande homem há uma mulher cansada, invisível aos olhos da sociedade, que abriu mão de seus sonhos (algumas não chegaram a saber que os tinha, como é o caso da minha mãe) para que o outro acumulasse  capital (econômico e cultural) etc.

Por isso, a necessidade do diálogo e de uma educação forjada numa prática libertadora como defendia bell hooks, ativista, escritora e professora estadunidense (nascida  Glória Jean Watkins). Assim como Paulo Freire, hooks acreditava em uma educação que não moldasse o indivíduo ao status  quo vigente, mas que o educasse para questioná-lo e, assim, promover uma transformação em todas as áreas do conhecimento.

Precisei adentrar as portas da Universidade para contestar certas ideias que a mim chegaram como verdades absolutas, mas, e aqueles/aquelas que não puderam chegar até ela? E, os/as que tiveram oportunidades, mas mesmo assim, já estavam com as verdades incrustadas na cabeça?  

Com bell hooks aprendi que o amor – Tudo sobre o amor: novas perspectivas (2000) –   é mais do que um sentimento, é uma prática ética e política. Através dele, somos capazes de combater preconceitos e estereótipos. Amor é esse combo composto por responsabilidade afetiva (tão escassa em nossos tempos), respeito, cuidado e empatia.  Quando decidimos acolher os que estão à margem, desafiamos  a lógica da opressão e criamos uma revolução sem precedentes na história.

Com bell hooks aprendi que o feminismo não é sobre mulheres terem os mesmos direitos dos homens, já que isso apenas significaria desfrutar dos mesmos privilégios deles dentro de uma sociedade desigual. Não é colocando as mulheres no topo de uma sociedade patriarcal que o patriarcado deixará de existir.

De tanto escutar barbaridades sobre o feminismo, de tanto desejar ter uma resposta simples, direta e não fantasiosa sobre o que é o feminismo, para que fosse lida e relida por gerações,   bell hooks escreveu o livro Teoria feminista: das margens ao centro (1984) em que a pensadora declarou: “Feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, exploração sexista e opressão”. Ou seja, é uma ferramenta que nada tem a ver com anti-homem, mas com o sexismo. Num mundo em que o óbvio precisa ser dito e escrito, o sexismo é o preconceito ou a discriminação baseada no sexo ou no gênero da pessoa.

O feminismo concebido por hooks – “margens ao centro”, parte não do campo de vivência das mulheres brancas, mas das  experiências de mulheres marginalizadas (negras, pobres e periféricas) para transformar as bases da sociedade.

Quem pensa que somente os homens são sexistas, infelizmente estão enganados. Muitas mulheres precisam rever suas falas machistas e suas posturas hostis em relação ao seu próprio gênero. Enquanto as mulheres estiverem em guerra e competindo uma com as outras, sororidade e empatia serão meras ilusões. A rivalidade feminina beneficia exclusivamente ao sistema patriarcal.

A falta de letramento sobre desigualdade de gênero faz com que naturalizemos inúmeras citações absurdas, como o fato da exclusão de mulheres com filhos de promoções ou que elas realizem atividades domésticas ou de secretariado ( fazer o café, atender o telefone, redigir uma ata) dentro de uma instituição pública ou privada. Enquanto não substituirmos ações sexistas por ações feministas estaremos contribuindo para fortalecer o sistema patriarcal.

Muitos homens até podem pensar (e pensam) que se beneficiam do patriarcado, mas não sabem que sua pseudoforça é, na verdade, sinal de fraqueza e insegurança. Em troca de aplausos, privilégios e vantagens financeiras, o sistema patriarcal impõe custos  severos a eles: pressão constante por autossuficiência, solidão, isolamento, problemas de saúde física e mental.

Em  O feminismo  é para todo mundo (2000), dividido em 19 capítulos,  a obra passa por diferentes temáticas: raça, gênero, violência, direitos reprodutivos, beleza, maternagem e paternagens feministas etc. A autora deixa claro que o feminismo não é uma embate de mulheres contra homens, mas a construção de uma sociedade em que todas as pessoas possam ser livres. Por isso, a crítica contundente  ao feminismo burguês – mulheres brancas nos cargos de poder – não levando em consideração as experiências de outras mulheres. Não se trata de alterar o sistema para que umas poucas tenham direitos, mas de acabar com o patriarcado.

Para isso, o feminismo não pode ficar restrito ao ambiente acadêmico, precisa ser conhecido pela massa e adotado por todos independentemente de raça, classe ou gênero.

Além disso, a conscientização para homens é tão importante quanto para mulheres. A partir do instante em que o gênero masculino entender o que é o sexismo e como ele pode ser transformado, será impossível a mídia continuar batendo na ideia de que o feminismo é anti-homem. Feminismo é antissexismo.

bell hooks é porta-voz do feminismo contemporâneo que eu acredito e quero contribuir para sedimentar e para divulgar. E você?

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *