O rabo de burro

Numa pacata cidade interiorana, lá pelos idos dos anos cinquenta, quando eu ainda era criança, vivenciei os fatos que passarei a narrar. A mencionada cidade encrava-se em um vale verdejante e é rodeada de extensas áreas rurais, onde abundam árvores de lei, coqueirais e carnaubais que oferecem matéria-prima para as diversificadas indústrias de beneficiamento. O município dispõe de nascentes com águas cristalinas, que são absorvidas pela superfície achatada da chapada e infiltram-se no seu âmago, brotando aqui e acolá, jorrando o líquido precioso como se fossem generosos peitos maternos repletos de leite para alimentar seus filhos.

Somando-se a beleza natural e o clima agradável, a cidade ostenta belos e zelados casarões, amplas casas que se enfileiram nas ruas largas, ladeadas com plantações de beijamim-ficus, além das arborizadas e graciosas praças. Nos idos anos setenta a mencionada urbe encontrava-se em processo de desenvolvimento, atraindo a industrialização, o empresariado e novos moradores, mas ainda não perdera seu jeito pitoresco de ser.

De modo que aqueles fatos estranhos, misteriosos e inexplicáveis que ocorrem desde que o mundo é mundo e não deixarão de acontecer, faziam parte de suas vivências e as pessoas lhe davam crédito. E mesmo aqueles que a instrução e a ciência já haviam  tornado incrédulos, guardavam nos seus íntimos algumas dúvidas sobre a autenticidade dos casos, descrendo-lhes em regra, porém sempre fazendo figa nos dedos com medo de confrontá-los.

Lá, portanto, não havia quem não tivesse para contar um caso de alma penada, lobisomem, encantos da mata e outros tantos e que deles tivesse tomado conhecimento, por ouvi dizer ou de ciência própria. No meu caso, parte do que lhes enredo aqui eu vi com meus olhos, os mesmos que sob meus protestos, quando eu fizer a derradeira viagem, a terra há de comer. Os outros, ouvi contar e neles creio porque se assemelham, direta ou indiretamente, nas suas bizarrices, com o que presenciei.

Como em toda pequena cidade, lá há algumas famílias abastadas, cada uma delas com suas peculiaridades e, como sempre ocorre, em incandescentes fogueiras de ego, alardeiam suas tradicionais histórias e atribuem aos antepassados parentes o nascimento, tradição e desenvolvimento do lugar, desconsiderando que são os anônimos que movem o mundo.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            

Em que pese as mudanças que o progresso acarretou ao lugar, algumas práticas se mantém. A exemplo do dito, cite-se a família Vila Verde, notória por sua tradição e educação esmerada, além dos decantados serviços sociais prestados. Os Barbacenas, por sua vez, continuam destacando-se por serem donos de vastas propriedades rurais e um número considerável de empregados. Nos tempos remotos, mesmo que de relance os empregados rurais tivessem ouvido menção aos direitos trabalhistas, sequer ousavam pronunciá-los em voz alta, muito menos exigi-los. A maioria trabalhava pelo pão do dia a dia e vivia em condições existenciais, quando não paupérrimas, muito precárias.

Os Montenegros não obstante, embora, atualmente, tenham reduzido o patrimônio e o prestígio, à época dos fatos que ora se conta, eram titulares de imóveis valiosos e proprietários das grandes mercearias e empórios, nos quais empregavam duas ou três centenas comerciários.  Naquela década a família Mercedez gabava-se de ter mais de um profissional liberal dentre seus entes, inclusive um médico, experto raro, haja vista a dispendiosa empreitada de formar um esculápio. Por conseguinte desfrutava de muito prestígio e vangloriava-se de ter na estirpe juízes e até mesmo um desembargador e um bispo.  Os Neponucenos, no quesito status, se assemelhavam aos Mercedez, já que um dos cinco e querido médicos do lugar era seu cabeça e tinha a vaidade de haver conquistado dois anéis de magistério, um da esposa e outro da irmã, condição que naquele tempo causava acepção de pessoa. Era homem de gênio temperamental e embora atendesse gratuitamente os menos aquinhoados, angariando-lhes a fiel subserviência, não aceitava qualquer conduta que entendesse como afronta a si e aos seus, fazendo uso da violência, que era praticada por seus sequazes. Dessa fama, aproveitavam-se a esposa e filhos arrogantes.

Os Gonzales, instalados em sua maioria em grandes e produtivas terras rurais, vivia às expensas dos lucros com a agricultura e indústrias de beneficiamento artesanais da matéria-prima dos carnaubais. Muitos e mal pagos eram seus trabalhadores. Já a Genealogia Fagundes era dona de expressivos recursos, parte deles oriundos da herdade formada ao longo de gerações e acrescida há, aproximadamente quarenta anos com o lucro de um afano de relevante repercussão, praticado naquelas cercanias por um dos seus membros. Os demais cidadãos de Vale do Sossego eram desprovidos de significativos bens materiais e limitavam-se a sobreviver e, sazonalmente desfrutar de pequenos prazeres como festas religiosas, quermesses, casamentos, batizados e outros eventos de similar natureza. Nos idos e memoráveis tempos, a igreja católica reinava quase absoluta no município, havendo tão somente uma concorrente, numa sede da igreja protestante, cujo pastor, um norte americano, se instalara na cidade com sua família e lá conseguira arregimentar alguns adeptos.

Essa, a grosso modo, era a realidade social, econômica e religiosa da cidade na qual se verificaram os inusitados fatos que mudaram minha percepção do mundo material e do invisível. Os casos que descreverei não foram os únicos, posto que desde remotos tempos outras grotescas histórias foram contadas e cantadas em cantorias e versos de cordel,  envelhecendo ao longo das gerações e, a cada uma delas,  adquirindo nuances que as tornavam mais interessantes ou menos atrativas.

A título ilustrativo, por exemplo, contava-se do mercador de ouro e pedras preciosas que vagava nas noites de sextas-feiras, batendo nas portas das abastadas famílias para oferecer suas valiosas mercadorias. Quando era atendido por pessoas desavisadas, punha-se a mostrar as onerosas e deslumbrantes peças, precificando-as. E em dada hora, ao repique dos sinos, o galante vendedor tornava-se fétido e desfigurado e as joias desapareciam de suas mãos, para em seguida, sem explicação, o homem sumir deixando um rastro de podridão no ar, que só com muitos perfumes e tempo desapareciam.

Dizem que se tratava da alma penada de um  comerciante de joias que vagava inconformado por não haver vingado seu assassinato, perpetrado por um dos antepassados dos Gonzalez. Há algumas dezenas de anos, em vida, o mercador viera à cidade negociar sua valiosa mercadoria. Após exitosas transações fora aconselhado a fazer a mercância nas casas dos familiares de um rico fazendeiro que residia na zona rural da cidade. Lá, e em uma delas, fora vítima de uma perfídia e morto cruelmente, tendo sido seu corpo enterrado na terra nua e a sepultura disfarçada com uma bananeira. Conta-se que a família do ourives, que tinha panos para as mangas, constatando que não voltara no tempo previsto e suspeitando que algo terrível lhe ocorrera, contratou um detetive particular para encontrá-lo. O delito foi desvendado e o assassino  obrigado a desenterrar o defunto, que já se encontrava em adiantado estado de putrefação e carregá-lo nos ombros até a Delegacia local. O desfecho desta história poderá ser matéria de outras histórias.

Não menos interessante era o caso atribuído, em tom de segredo, a um dos antepassados dos Fagundes, ao qual imputava-se a prática de um dos piores pecados, aquele mesmo que, segundo a Bíblia, no antigo testamento, deu-se entre Ló e suas duas filhas. Estas induziram-no a com elas fornicar a fim de que tivessem descendência. Para tanto embriagaram-no e, sucessivamente em duas noites, mantiveram coitos com o pai, obtendo êxito nas empreitadas, posto que  cada uma delas restou prenha. No caso do Fagundes, sua culpa foi maior e imperdoável. Aproveitou-se da indefesa e pura adolescência de sua descendente e, em repetidas vezes sujeitou-a sexualmente, tendo a jovem concebido e dado à luz. E como se não bastasse o terrível vilipêndio, dispôs do corpo da moça, inclusive cedendo-a a um dos preferidos de sua prole e posteriormente negociando-a.  

Reiteradamente surgem histórias relacionadas a tragédia da principal vítima de Fagundes, a jovem violada, humilhada e vendida pelo próprio ascendente. Elas são contadas e recontadas por gerações posteriores às das pessoas envolvidas no caso. Gente que sequer teve conhecimento do drama. Conforme os casos narrados não foram poucos os que vivenciaram episódios que remetem a insólita passagem vivida por Dante, na obra A Divina Comédia Humana, na qual acompanhado pelo poeta Virgílio, sucessivamente transita pelo inferno, purgatório e céu para encontrar sua falecida e amada Beatriz.

Como dito, um dos mais recontados e insólitos casos que se tem notícias,   de certo modo remonta a descrição do Vale dos Ventos, contida no segundo círculo do inferno, na obra A Divina Comédia Humana, de Dante de Alighieri. No citado círculo estariam as almas das pessoas condenadas pelo pecado capital da luxúria. Essas almas sofriam indizíveis torturas afligidas por um incessante furacão e turbilhões de vento, a fim de lembrar-lhes constantemente que, em vida, foram seduzidas e comandadas pelos desejos libidinosos.

Pois bem, muitas vezes  ouvi com espanto e arrepios de boa parte dos pelos que recobrem meu corpo, a história de assombração do antepassado dos Fagundes. Todos os que experimentaram-na foram incautos que transitaram a noite numa das estradas que liga uma propriedade rural daquela família à sede da cidade. Os fatos presenciados por elas, salvos pequenas e insignificantes discrepâncias, são convergentes.

Conforme seus relatos, em determinado trecho da via, ouviram um alto e forte sibilar de ventania soprando em suas direções. À medida que apressavam os passos tiveram a impressão de que o fenômeno aumentara em velocidade galopante. Entretanto não sentiram nos corpos quaisquer sensações causadas pela ação dos ventos, somente escutaram o barulho ensurdecedor, típico de tempestade. A certa altura dos acontecimentos ouviram medonhos e desesperados gritos e pedidos de socorro.

Inadvertidamente, e atendendo ao primitivo e natural instinto de solidariedade, essas pessoas se deslocaram rumo aos gritos e deparam-se com uma cena apocalíptica, própria de filme de terror. Foram testemunhas de uma visão infernal, terrível e inexplicável, na qual um homem sexagenário, de aparente vigor físico, era fustigado pela tempestade. Seu corpo envergava-se e se contorcia de forma pela ação e força da intempérie. As pernas abertas em lados opostos num ângulo de trezentos e sessenta graus anunciavam que seriam, horrível e excruciantemente, amputadas. Os braços arrevesados do infeliz senhor, açoitados pela força escomunal da tormenta, tentavam desesperadamente, e em vão, agarrar-se ao tronco decrépito de uma árvore próxima.

O agonizante senhor gritava sem parar e sua expressão facial denunciava padecimento escomunal. Os cabelos desgrenhados cobriam-lhe parcialmente o rosto angustiado. Abria e fechava, sem parar, os olhos esbugalhados e sanguinolentos tentando, sem sucesso,  livrar-se dos detritos lançados contra si. O vestuário do miserável não passava de frangalhos, deixando a mostra sua genitália empoeirada e o falo surrado, que balançava ao sabor impiedoso do vendaval,  próximo  de ser arrancado pela força da natureza.

A pavorosa cena amedrontava o mais intrépido dos seres humanos, notadamente pelo fato de não experimentar qualquer sensação causada pela bátega, apenas ouvindo-lhe os estrondosos ruídos. Mesmo a mais indômita das pessoas, a melhor e mais altruísta delas, que se comovesse com a agonia indizível do supliciado, poderia lhe prestar socorro e atenuar sua dolorosa situação.  A intempérie formava um círculo impenetrável ao redor do condenado homem.

De acordo com os relatos, a dantesca  cena dá-se em intermináveis três ou cinco minutos que parecem durar séculos. E, repentinamente  o cenário infernal, em um passe de mágica, some sem deixar nenhum vestígio de sua ocorrência. Os mais antigos acreditavam que a personagem da história não é outra, senão a alma agonizante do Fagundes, condenada ao fogo eterno, por haver conspurcado a honra de sua descendente e destruído-lhe a vida.

São também frequentes as histórias relativas as visagens atribuídas a alma penada do padre, que na década de trinta, exerceu a função de pároco da cidade, tornando-se, portanto respeitada autoridade eclesiástica do lugar. Segundo vituperam as más línguas,  o citado reverendo foi destinatário de um ardil que lhe provocou fatal acidente, do qual restou gravemente ferido e, após breve enfermidade, faleceu. Sem nenhuma comprovação convincente traçam um elo entre a fatídica queda do cavalo  e um imaginário romance havido entre ele e uma casta e boa moça da família Vila Verde.

Conforme confabulam os intrigantes de plantão, a jovem não chegou a ceder fisicamente às supostas investidas do religioso, nas quais não raro mesclava os argumentos temporais com apelações teológicas. De acordo com as maldosas difamações, a ingênua e cândida moçoila suspirava na sacristia enquanto responsabilizava-se pelos protocolos litúrgicos e tudo mais que tivesse relação com o melhor e perfeito andamento da igreja local. Cuidava com esmero  da agenda pessoal e funcional do reverendo, preocupava-se com demasia em suprir suas carências materiais de alimentação e vestuário. Ouvia-lhe as pregações completamente absorta em admiração e platônica paixão. Em sua casa, juntamente com a família, recebia-o com as mais prestimosas atenções e pródigas deferências.

Sabe-se, porém que a malícia humana não conhece limites. Tamanha era a maledicência dos intrigantes plantonistas que integravam o círculo mais próximo de ambos, que mesmo à míngua de elementos que justificassem as desconfianças, urdiram a falaciosa versão de um caso passional, já estabelecido e consumado, entre a cândida moça e o ilibado sacerdote. A maldade dos fofoqueiros não lhes habilitava compreender o reverencial enlevamento da jovem, completamente  embevecida pelos peculiares sonhos da juventude.

Numa época na qual as mulheres sequer poderiam deleitar-se com a literatura, andar desacompanhadas e autotutelar-se, os cuidados e mimos destinados ao religioso pela devotada moçoila logo chamaram a atenção das perniciosas e invejosas línguas. E, num piscar de olhos, teceu-se uma falaciosa versão, na qual entre eles abundaram encontros clandestinos, relações pecaminosas e o prenúncio de um escândalo, envolvendo uma das mais importantes famílias da cidade e o Clero. Caso o boato transpusesse o conhecimento do pequeno círculo que o criara e chegasse ao domínio público o caos seria inevitável. Para evitá-lo e atalhar, de uma  vez e de forma eficiente, maiores e desastrosos rumores, os cabeças dos Vila Verdes entenderam que seria o caso de criarem uma providencial e fatídica contingência com consequência fatal, apta a comover toda a sociedade, inclusive o mais desalmado e insensível indivíduo e direcionar  totalmente o interesse da plebe por outros assuntos, que não a tragédia que vitimaria o amado sacerdote.

Os pais e parentes próximos da jovem, embora acreditassem na inocência do pretenso casal de amantes, não deram qualquer importância a esta possibilidade. Tratava-se de um mero e insignificante detalhe. Que valor teria a verdade diante do estrago irreparável na reputação imaculada daquela poderosa família? Traçou-se o destino e precoce morte do pároco.

O querido e atencioso sacerdote realizava as visitas do ofício, bem como as pessoais, fazendo uso de um belo e bom alazão. Era um cavaleiro experiente e jamais  teve-se notícia que passasse apuros nas suas andanças, mesmo que o fizesse em um indômito cavalo, burro brabo ou até em um jumento. Sua decantada experiência não lhe pôs a salvo da perfídia que lhe prepararam. Planejaram enfiar um afiado prego na cela do seu cavalo, de modo que com o cavalgar o artefato ia penetrando no lombo do cavalo até que a dor tornar-se insuportável e o animal empinasse derrubando o cavaleiro. Justamente no dia em que o pároco subiria a serra, cujo caminho era ladeado por perigosos abismos, a trama foi executada. Por maior que fosse sua maestria não livrou-se da queda. Na ânsia de evitar o abismo caiu em um local com pedras grandes e pontiagudas que perfuraram-lhe o crânio, deixando-o inconsciente. Foi socorrido pelos executores do pérfido plano, que demonstrando falsa preocupação e tristeza, socorreram-no. O final já se sabe. A vítima do acidente  restou moribunda por alguns dias e faleceu, causando  tristeza e comoção geral na cidade, exceto para os que sentiram-se aliviados com a eficiente medida.

Nem sempre o que parece resolvido no mundo material, define-se no invisível. Por isso, muita gente acredita que aquela visagem já vista por centenas de pessoas ao logo de todos esses anos, trata-se da alma penada do padre exigindo que cumpra-se a justiça, e o crime contra si praticado seja compensado de igual maneira, fazendo vítima um descendente de seus algozes. Como dizia meu saudoso pai, o mundo não é um baú. Segredos, por mais guardados que sejam, um dia fogem ao controle de seus guardiões. Mais cedo ou mais tarde o maior deles será exposto  por alguém, que inadvertidamente fale em demasia,  por uma palavra mal colocada, uma insinuação compreendida, uma vindita ou outro recurso que abra caminho à verdade. É possível que até mesmo as forças do mundo invisível conspirem no sentido de que eles cheguem ao conhecimento do público.  As almas penadas do Vale do Sossego atormentavam os viventes para lembrar-lhes seus tristes destinos e exigir reparação.

Como disse, anteriormente ouvi com frequência esses relatos, que eram contados, aqui e acolá, com algumas divergências, entretanto não suficientes para desautorizá-las. Sou pessoa racional com um pé no sobrenatural, e por isso, com certa reticência, dava crédito as histórias aqui relatadas e outras que serão objeto de futura narrativa. De modo que quando vivi a experiência que passarei a contar, espantei para sempre qualquer dúvida de que elas ocorressem. O episódio deu-se quando estava naquele limbo entre a infância e adolescência. Nessa época era majestosa residência da família Neponuceno, um casarão bonito e bem construído sediado em uma das principais ruas da cidade. Seu chefe falecera há um certo tempo, entretanto a esposa e filhos gozavam do mesmo prestígio e exerciam uma temida reverência na comunidade local e adjacências, seja pelos favores que alardeavam terem prestado, fosse pelos recorrentes e discutíveis métodos que utilizavam contra os que lhes desagradavam, e não tinham como revidar as medidas nem tampouco ousavam fazê-lo.

Naquele tempo começou a circular boatos de que gatos e cães de menor porte apareciam mortos com marcas de presas afiadas em seus pescoços, sem olhos  e com carcaças totalmente desprovidas de sangue. Sobre tais casos levantaram-se muitas especulações, nenhuma delas comprovada. Eu mesma nunca vira tais animais mortos nessas circunstâncias, entretanto não deixara de me interessar pela história, que foi tomando proporções cada vez maiores. Minha avó criava muitos gatos e, já naqueles idos dos anos cinquenta, dedicava aos felinos cuidados especiais que não eram comuns à época. Preocupava-se sobremaneira quando um deles desaparecia ou voltava doente ou ferido de suas andanças. Então punha-se a adotar-lhes medidas curativas, muitas vezes com sucesso. E se não conseguia curá-los e um deles morria, sofria em demasia a ponto de adoecer, sem no entanto,  deixar de realizar os sepultamentos dos bichanos no seu quintal. Um dos meus irmãos apostava que pelo número de cadáveres felinos ali sepultados, no futuro descobrir-se-ia petróleo no lugar.

Certa manhã andando pelo seu quintal, vovó deparou com o corpo inerte de um dos gatos de sua preferência. Aflita, aproximou-se do animal para determinar-lhe, pelo menos aparentemente, a causa morte. Acompanhei-a na diligência, mais por curiosidade do que por piedade do bichano. E qual não foi nossa horrorosa surpresa ao constatar que houvera morrido de forma semelhante aos gatos das pavorosas histórias que circulavam em vale do Sossego. O bicho apresentava dois furos de bordas regulares na zona medial ao músculo esternocleidomastoideo. No lugar dos olhos havia tão somente os orifícios que não apresentavam qualquer resquício de sangue. Óbvio que aquela pobre criatura, após o ataque, não viera parar ali com suas próprias pernas. Fora sacrificado naquele lugar, já que no seu entorno havia marcas no chão indicando que se estrebuchara tentando salva-se do algoz. Estarrecidas detivemo-nos algum tempo examinando a vítima. Superado o pavor, vovó cuidou das exéquias de seu animal preferido, para em seguida depois de muito choro e lamentação, contar o caso aos conhecidos.

Meses passaram-se até que outras vítimas da estranha besta aparecessem em Vale do Sossego, nos dias seguintes as noites de lua cheia. A primeira delas foi o cão labrador do Doutor Epaminondas, destinatário de muito bem-querer de toda família. Ele foi encontrado em estado similar ao gato de vovó. Cedo da manhã o jardineiro da residência encontrou a mutilada carcaça. O espanto tomou conta de todos e, as especulações acerca de quem pudera matado o cão multiplicaram-se. Eu, que vira de perto e examinara meticulosamente o corpo inerte do gato Faruke, constatei a semelhança entre as fatídicas mortes de ambos. Considerando o tamanho do cachorro aterrorizei-me imaginando que a horripilante criatura poderia muito bem vitimar seres humanos.

Na noite de lua cheia que se seguiu a da estranha morte do labrador de Doutor Epaminondas, eu e alguns adolescentes brincávamos na calçada, quase na frente da imponente casa do falecido Doutor Neponuceno.  Dos seus cinco filhos uma era mulher e já passara dos trinta anos. Era uma moça atraente, entretanto sua prepotência  esmaecia o que de belo possuía. Havia casado-se com mais de vinte anos, entretanto as núpcias não lograram êxito devido a seu intolerante temperamento. A separação do casal foi um escândalo que se  comentava a boca muda e sempre com reserva e medo da identificação dos fofoqueiros.

Há quem diga que as mulheres da família do citado esculápio haviam sido amaldiçoadas por uma velha e decrépita senhora. Ela residira num local ermo da remota propriedade rural que Doutor Epaminondas herdara. Contam que a citada mulher era habilidosa curandeira e possuía artes de feitiçaria. O proprietário da terra onde morava certa feita exigiu-lhe que curasse seu garboso e bonito cavalo. A velha senhora respondeu-lhe que não tinha o condão de fazê-lo, porque o bicho fora enfeitiçado por uma pessoa mais poderosa que ela e que tal fato dera-se por vingança. O dono da terra irado com a recusa da mulher, determinou-lhe que abandonasse a casa em vinte e quatro horas, sob pena de queimá-la junto com a moradora. A idosa desobedeceu e o malvado senhor mandou atear fogo na choupana durante a noite, enquanto sua moradora dormia. Conta-se que a vítima, no meio das chamas crepitantes e antes de morrer, lançou uma horrível maldição contra as mulheres descendente do ancestral de Doutor Neponuceno, que as alcançaria até a décima geração. Esta história povoava nossas mentes e ficávamos a imaginar se a maldição alcançara Zainab.

As brincadeiras na calçada nessa noite de lua cheia foram até a madrugada, ocasião em que cada um dos integrantes já voltara para casa. Como eu morava perto do local, detive-me um pouco mais. De repente minha atenção voltou-se para gritos femininos que vinham da casa do Doutor Neponuceno. A curiosidade invadiu-me e os impulsos da idade fizeram acercar-me do muro baixo que protegia a residência. Percebi que o portão estava entreaberto e, sem convite entrei seguindo o som. Deparei-me com a cena que enquanto juízo tiver lembrarei com terror. A porta do quarto de encontrava-se aberta. Espreitei-me e vi que havia um vestido de noiva pendurado em um cabide sob um armador. Zainab fazendo uso de uma pontiaguda tesoura rasgava-o furiosamente. Em determinado momento sua mão resvalou e o instrumento rasgou-lhe um dos antebraços, exatamente na região do pulso. O sangue esguichou e a enfurecida mulher pôs a sugá-lo, avidamente, urrando nos pequenos intervalos da espantosa sucção.

Escondi-me em recanto da casa paralisado de terror, e aí presencie o que jamais poderia imaginar. A mãe de Zainab entrou apressada no quarto trazendo nas mãos um gato gordo e grande que tentava escapar imaginando o trágico fim que o esperava. A senhora Dolores entrou no quarto da tresloucada filha e entregou-lhe o bichano, tendo esta largado seu pulso e com a boca repleta de sangue, que abundantemente escorria-lhe pelos lábios, abriu-a deixando ver quatro enormes presas, duas superiores e duas inferiores, com as quais sugou todo o sangue do finado gato, para depois com as unhas arrancar-lhe os olhos e devorá-los.

Nunca senti tanto medo. Meu corpo paralisado tremia e não conseguia sair do esconderijo. Ao cabo de alguns minutos que pareceram séculos logrei êxito em ver a saída da casa sem ninguém, então corri. Bati em alguma coisa que ressoo em um barulho, chamando atenção das mulheres. Puseram-se a procurar pelo  invasor do macabro local  que  vira tão espantosa e sigilosa cena. Minha agilidade pôs-me a salvo. Dessa noite em diante jamais duvidei que existem coisas e fatos que nossa compreensão não alcança e, nas noites de lua cheia, cerco-me de todos os cuidados, evitando as cercanias daquela casa e temendo Zainab, esteja ou não, sob o efeito da maldição.

Sobre a autora:

Efigênia Coêlho Cruz

Nascida em 16/11/1963. Otimista com os pés no chão, professora universitária aposentada, Promotora de Justiça e pretensa escritora.

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