Aos vinte anos de idade entrei no Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE) me julgando “a leitora”. Como é interessante quando a vida nos mostra que o caminho a palmilhar é bem maior do que podemos imaginar!
Primeiro semestre – Teoria da Literatura I.
Segundo semestre – Teoria da Literatura II.
Terceiro semestre – Teoria da Literatura III.
“Que coisa mais chata é estudar teoria! Quem se interessa por teoria?” Eu quero é a prática. Eu quero ler e debater os livros”. Ainda me lembro do professor Cândido estático e decepcionado comigo: “É preciso muita teoria para entender a literatura. É preciso muito conhecimento teórico para se debater uma obra literária”. Para dizer “gostei” e “não gostei” não precisa fazer Letras.
Depois de meu arroubo juvenil contra a teoria, fiquei calada, mais por “vergonha” do que propriamente por acreditar que a teoria (neste caso a literária) fosse algo interessante. Quando eu pensava em teoria, me vinha à mente pensamentos hermérticos de Bakthin, Foucault, Deleuze, Derrida etc. Como simples mortal, nada conseguia compreender. Havia, ainda, o fato do pensamento cartesiano que envolve o processo de teorização: a razão em detrimento da emoção como o cerne da construção de um conhecimento verdadeiro. Isso sem contar com o fato de que para forjar teorias sólidas era necessário um distanciamento entre o pesquisador e o objeto pesquisado. Eu comigo mesma: como posso entender sobre um dado assunto se dele preciso ficar o mais longe possível?
A graduação terminou, mas meu horror à teoria, não. Mestrado em Letras na Universidade Federal do Ceará (UFC). Apenas duas disciplinas obrigatórias: Teoria Literária e a Dissertação. Fui em busca de informações sobre o professor de Teoria: “professora Odalice de Castro Silva”, que anos mais tarde se tornaria minha orientadora, “lenda vida da UFC”, amada por poucos, “odiada” por muitos, alguém que respirava teoria por todos os poros.
Primeiro seminário da disciplina de Teoria Literária. Adivinha quem nunca ganhou uma rifa, mas foi sorteada para abrir os trabalhos do semestre? Eu…Entre o misto de desespero e medo, comecei a leitura do ensaio “O artista e o artesão”, da coletânea O baile das quatro artes (1943), de Mário de Andrade, que até o momento eu conhecia como poeta e romancista.
Enquanto teórico, Mário criticava o individualismo e o experimentalismo dos artistas. Alegava, eu concordo, que a arte contemporânea tem como foco o artista e não a arte. Afirmava que “o humano é uma fatalidade”, quando se fala de arte verdadeira. A disciplina findou e o meu interesse por teoria começou.
Por que esse assunto tantos anos depois? Estava lendo Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade, da escritora e teórica americana Glória Jean Watkins, mas em homenagem à sua bisavó materna, Bell Blair Hooks, passou a assinar bell hooks, assim minúsculo mesmo, para descolar a atenção de si para sua obra, assim como Mário de Andrade acreditava ser o verdadeiro artista (neste caso, artista).
Na obra, uma autobiografia intelectual, inspirada no educador brasileiro Paulo Freire, bell hooks propõe uma pedagogia que desafie o modelo bancário, tradicional e supere as desigualdades. No capítulo 5, “A teoria como prática libertadora”, a pensadora expõe sua relação com a teoria: “Cheguei à teoria, porque estava machucada – a dor dentro de mim era tão intensa que eu não conseguiria continuar vivendo. Cheguei à teoria desesperada, querendo compreender – apreender o que estava acontecendo ao meu redor e dentro de mim. Mais importante, queria fazer a dor ir embora. Vi na teoria, na época, um local de cura”.
Quando crianças somos boas em criar, formular e propor ideias. Quando crescemos, somos ensinadas que, desde os tempos imemoriais, as coisas são como são. “Não é você que vai mudar”.
bell hook diz, ainda, que na sua infância, ao tentar fazer as pessoas ao seu redor a olhar o mundo por outra ótica, “usando a teoria como intervenção”, como meio de desafiar o status quo, era severamente castigada.
Quantas vezes ao tentar fazer as coisas de outra maneira escutava da própria mãe: “ Não sei de onde você veio, mas bem que eu gostaria de mandá-la de volta para lá”. Foi assim que nasceu sua inveja da personagem Dorothy, do filme “O mágico de Oz”, que viajou por seus medos e pesadelos até descobrir que “não há lugar como o lar”.
Transvestida por essa sensação de desamparo, bell hooks encontrou refúgio na “teorização”. A teoria nos permite entender os “porques”… de ser e de estar no mundo, de uma educação castradora, das múltiplas violências, do apogeu do capitalismo, do apoio as ditaduras etc.
A(s) teoria(s) quer sejam literária(s) ou feminista(s) nos conduzem ao pensamento, a análise e a crítica não só para refletir sobre determinados temas, mas para nos curar do(s) outro(s).
A teoria como intervenção, como cura é um olhar para trás, sob uma perspectiva sistematizada de respostas a perguntas nunca respondidas. É se autorrecuperrar do tempo passado para entender e viver o tempo presente.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
