Senti o cheiro de desespero quando ela entrou na nossa sala. Tinha lavado o cabelo e trocado a calça jeans, depois de dias usando a mesma roupa para trabalhar e tentando disfarçar a preguiça, adicionando um pouco de perfume por cima da blusa e lambendo o cabelo com fixador para adiar o vencimento da escova. Parecia até aquela que conheci há uns cinco anos, quando começamos a trabalhar juntas.
Entrou cumprimentando todos com um sorriso largo, para ninguém ter coragem de falar que, mais uma vez, ela já tinha passado do que seria normal considerar como atraso. Fazia tudo de forma tão natural que a menor reação à sua falta de comprometimento seria, na verdade, um insulto a toda aquela beleza e simpatia. Claro que devolvi o sorriso de onde estava e ouvi um colega falando: “Hummm, hoje é sexta.”
Às sextas, usamos jeans e almoçamos todos juntos. Não somos amigos, nem colegas, mas partilhamos da mesma ambição. Costumamos fingir discursos elogiosos e de encorajamento uns aos outros, mas nada passa de mera encenação nas redes sociais, onde o nosso público externo e que eleva nosso capital humano a outras potências, principalmente com a foto do nosso almoço de sexta.
Às sextas, usamos jeans e almoçamos todos juntos. Não somos amigos, sequer colegas apenas partilhamos da mesma ambição. Costumamos fingir discursos elogiosos ao trabalho uns dos outros, distribuímos palavras de incentivo e sorrisos fajutos, mas tudo não passa de uma encenação para as redes sociais. Tudo isso contribui para aumentar a percepção do público sobre nosso capital humano.
Percebo os olhares entre os dois, agora sentados frente a frente, após uma manhã de silêncio e fuga. É angustiante assistir de fora quando o caçador finge não ligar para a caça e a deixa com a sensação de liberdade em um espaço maior do que aquele que realmente lhe cabe. É uma dança determinada pelo ritmo do coração de cada um deles. Até o momento em que a caça, cansada, repousa despreocupada por acreditar que não é mais vista e está livre. Então, finalmente, é atacada pelo caçador faminto e cansado de todo o balé.
A vejo livre, dominando as conversas, aceitando outros olhares e investidas silenciosas, enquanto exibe os cabelos soltos, desabotoa mais um botão da camisa e nos convida para mais um brinde. Enquanto ele, tenta girar o corpo em uma posição que não se obrigue a assistir todo o ato da protagonista da mesa e com olhar de desdém impõe o silêncio da indiferença.
É um jogo. Tenho vontade de bater na mesa e alertar a todos, mas somos apenas duas mulheres no meio deles, que nos olham como itens do supermercado, que podem estar dentro ou fora da validade.
Não aguento! É de revirar o estômago.
Chamo Lídia para ir ao banheiro e pauso aquela exibição que antecede ao banho de sangue. No caminho, passando devagar entre as mesas, me questiono sobre o que posso dizer. Ela é uma mulher adulta, como eu, com alguns anos a menos, mas grandinha para entender no que está se metendo.
Solto uma pergunta clássica:
— Para onde você vai depois daqui?
Ela ri com o canto da boca.
Entendi.
Aprender a identificar um caçador que usa uma pele semelhante à sua é como dirigir, precisamos aprender com aulas práticas. Nem todo o vocabulário da língua portuguesa seria capaz de explicar, na teoria, o que estava prestes a acontecer. Havia um desejo que impregnava até os seus cristais de suor. Ela era uma barragem cheia, esperando que abrissem suas comportas.
E, nesse espetáculo, só cabiam duas pessoas. Nenhuma delas seria eu. Pelo menos, não dessa vez.
Espero que ela tenha mais sorte que eu. E que, mesmo exausta, consiga correr para longe dele, o bastante para perdê-lo de vista.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.
