Palavra imprópria

As fitas de cetim dançam na varanda: amarelas, azuis e vermelhas. O vento está generoso, faz frio e estou de pernas cruzadas, enquanto as mãos escrevem cada cisco que passa, quase todos, deixo alguns de reserva. Escuto o som do rastelo arrastando as folhas e o canto dos pássaros.

Hoje seria capaz de escrever 11 cartas de amor, não dizer nenhuma mentira e entregá-las em mãos a cada destinatária, mas não vou redigir meio ponto de uma linha. Juro que gostaria de destinar mais que onze cartas de amor e alguns bilhetes dizendo que estou esperando para comer lua e estrelas, porque o amor é maior que a imensidão dos céus.

Sinto a fumaça adentrando a varanda, é fogo na beira da linha. Um foguinho, logo passa. Penso se jogo água ou deixo acabar. Os ciscos vão montando um texto tipo Guernica, de Pablo Picasso.

As fitas ainda dançam sem uma coreografia planejada. Penso nas cartas e no jogo de verdades e mentiras. Começo mentindo. Calo para iludir a verdade. É possível enxergar com os óculos do vizinho e ser guiado pelo cego. Vejo que a placa anuncia descontos para quem esconder a sinceridade. Já não digo “eu te amo” e evito olhar com os olhos brilhantes, afinal, estão abortando a franqueza e falando em liberdade. Na contradição, sempre se acende fogo com gelo. Por isso ando evitando cartas de amor: estamos no período em que a verdade é palavra imprópria.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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