Uma jovem e poderosa concubina da Era de Joseon é condenada à morte por envenenamento, após ser acusada de conspirar contra a rainha e trazer desgraça para a população. No ato de sua morte, a alma de Kang Dan-Shim é transportada para 2026, na Seul dos dias atuais, moderna e tecnológica, e acorda no corpo de Shin Seo-Ri, uma atriz que já foi uma grande promessa do entretenimento sul coreano, mas que agora sobrevive de papéis pequenos e pouco reconhecidos. Ao assumir a identidade da Shin Seo-Ri, numa era acelerada, com carros, em vez de liteiras, pernas à mostra e cabelos amarelos, a concubina ganha uma nova chance de reescrever sua história. Determinada a conquistar esse novo mundo, Shin Seo-Ri esbarra com o temido “monstro do capitalismo”, o chaebol Cha Se-Gye. A química é instantânea e deliciosa! A dinâmica de enemies to lovers dos protagonistas fica ainda mais incrível de assistir, uma vez que ambos nos são apresentados como dois vilões, logo desprendidos dos dilemas morais que muitas vezes reprimem os mocinhos de índole inquestionável.
Essa é a premissa do drama sul coreano, My Royal Nêmesis (2026), que ocupou não só um triplex na minha mente, mas também um condomínio inteiro no meu coração. Exagerada? Talvez. Um pouco histérica? Dá licença que sou mulher! A verdade é que a série protagonizada por Lim Ji-Yeon e Heo Nam-Jun me tirou boas gargalhadas e sacudiu todas as borboletas do meu estômago, com as cenas de romance completamente caóticas do meu casal “ShinSeGye”.
Mas se o seu estilo não é romance, eu posso te indicar um k-drama de ação, ambientado no contexto escolar, que expõe o frágil sistema educacional sul coreano com alunos indisciplinados, bullying, pais abusivos e professores adoecidos (qualquer semelhança com o sistema escolar brasileiro não é mera coincidência). Para conter a crise nas escolas, o Ministério da Educação aprova uma medida drástica e cria o Departamento de Supervisão Educacional (DSE), um órgão que funciona como uma força-tarefa especial com autoridade legal para intervir diretamente nas instituições de ensino, com punições físicas liberadas. Aprendendo a Lição (2026) já é considerado um dos melhores dramas do ano e eu duvido que algum professor brasileiro que o assistiu não tenha desejado um DSE na vida real.
Porém se nenhum dos dois k-dramas te agradou, que tal um romance histórico, com uma protagonista densa que desafia os limites de classe e gênero de sua época (O Conto da Senhora Ok, 2024); ou quem sabe um de super-heróis super-caóticos que vai te fazer rir por qualquer besteira (Os SUPERtontos, 2026); ou talvez os desafios de uma advogada autista com hiperfoco em baleias (Uma Advogada Extraordinária, 2022); ou quem sabe O MAIOR DRAMA COREANO DE TODOS OS TEMPOS: Pousando no Amor (2019), que tem romance, tensão entre a Coréia do Norte x Coréia do Sul, amizades invejáveis e um casal de protagonistas que sai das telas para a vida real.
A verdade é que eu poderia passar horas e horas indicando e debatendo dramas sul coreanos de diversos estilos e gêneros, mas dois questionamentos sempre permeiam qualquer conversa sobre o tema: por que, mesmo com tanta diversidade nas produções ainda vejo comentários (geralmente de pessoas que nunca sequer assistiram um drama) que dizem que “é tudo a mesma coisa”, histórias de mocinhos frios e mocinhas submissas? E, por que mulheres que assistem k-dramas ainda são ridicularizadas, chamadas de iludidas, histéricas e desocupadas?
Existe uma brincadeira muito popular entre as fãs de dramas coreanos sobre o efeito borboleta de iniciar um k-drama, em seguida começar a ouvir k-pop, que desemboca no desejo de aprender a língua coreana, provar todas as comidas e quando você dá fé, está planejando uma viagem para a Coréia do sul com apenas R$ 2,00 no bolso. Posso afirmar com bastante propriedade que esse é sim o caminho mais natural (na minha experiência pessoal, eu troco facilmente as músicas coreanas pela literatura, que por sinal, é incrível!).
Mas não é estranho que até hoje eu sinta um certo desconforto em expor o meu interesse pelas produções artísticas de um país, que tem se tornado cada vez mais popular? De onde vem essa necessidade irracional de tentar justificar o porquê gosto de k-dramas? Por que o meu entusiasmo é tratado como algo vergonhoso, infantil ou, no mínimo, digno de uma piada?
Não é de hoje que, quando um gênero literário, artista, produção cinematográfica ou televisiva se populariza entre o público feminino, logo esse hobby começa a ser criticado, ridicularizado e diminuído, muitas vezes pelo próprio público masculino. Em contrapartida, homens obcecados por futebol, super-heróis e outros homens não são nada mais do que “normais”.
Hoje em dia, um dos grandes terrores de um professor do ensino fundamental são as famigeradas cartinhas de jogadores de futebol, que a molecada usa para brincar de “bafão” e “rabelar” uns aos outros. Sobretudo meninos costumam colecionar dezenas dessas cartinhas e constantemente são motivos de briga em sala de aula. Já as meninas costumam colecionar photocards de seus idols, boybands e girlbands preferidas. Se formos justos, podemos dizer que são duas faces de uma mesma moeda, ou talvez a mesma face dessa moeda.
No entanto, chega a ser ridícula a quantidade de vezes que já vi meninos debochando das coleções das meninas sendo que elas são bem menos histéricas que eles (pelo menos nenhuma menina chegou pra mim dizendo, “Tia, fulana de tal pegou meu photocard e não quer me devolver”).
Talvez a diferença esteja menos no que é consumido e mais em quem consome e como aprendemos a observar e julgá-los. O homem que conhece toda a escalação do seu time de futebol preferido, gasta dinheiro com camisas e coleções de álbuns e figurinhas e que vai para os jogos em estádios dificilmente será criticado ou terá sua capacidade intelectual questionada. Enquanto isso, uma mulher que acompanha todos os integrantes de uma banda, sabe os seus nomes, lançamentos, coleciona photocards e vai aos shows, é mais do que comum que os seus gostos sejam considerados “obsessões”, “histeria” ou “falta do que fazer”.
E as mulheres que não ousem gostar de futebol ou coisas “masculinas”, porque, das profundezas da “macholândia”, irão surgir homens para desmerecê-las com quizzes nem eles mesmos são capazes de responder.
Talvez o problema não seja o entusiasmo em si e sim quem tem permissão para demonstrá-lo. E aqui, damos de cara com o machismo que estrutura a nossa sociedade, que define as “coisas de homens” como padrão, enquanto as “coisas de mulheres” são fúteis e infantis.
Para a jornalista Bruna Arcanjo, “a mídia muitas vezes reforça esse preconceito ao ridicularizar mulheres adultas envolvidas com fandoms, tratando o comportamento como algo fútil ou como um resquício de uma adolescência mal resolvida. Além disso, o etarismo se manifesta na cobrança social para que mulheres “cresçam” e abandonem interesses considerados jovens demais para sua idade, como se a paixão por arte, música ou cultura pop tivesse data de validade”. São discursos que invalidam o prazer e a identidade dessas mulheres, reforçando uma estrutura que limita a liberdade feminina de ocupar espaços de maneira autêntica.
Nessa perspectiva, é possível observar a origem daquela necessidade infundada em tentar me justificar pelo simples fato de gostar de k-dramas: eu sou mulher numa sociedade patriarcal. Só isso já é argumento para várias prisões simbólicas às quais sou submetida. E honestamente, não preciso de motivos para dar play num novo k-drama. E não. Eu não sonho em casar com um “coreano gostoso” (com uma coreana, talvez). É difícil acreditar que eu só quero curtir?
REFERÊNCIAS:
ARCANJO, Bruna. Entre gritos e estereótipos: a presença feminina nos fandoms. Jornal Contexto, 24 abr. 2025. Disponível em: https://contextojornalismo.com/2025/04/24/entre-gritos-e-estereotipos-a-presenca-feminina-nos-fandoms/. Acesso em: 29 ago. 2026.
Sobre a autora:

Shirley Pinheiro
Graduada em Letras pela Universidade Regional do Cariri.
