Passava os dedos entre os cabelos, como se fosse possível tocar nos pensamentos e organizá-los de uma forma que tornasse viável suportar a dor trazida pela realização de uma vida que foi muito sonhada, porém insustentável. Suportar o peso da conta que não fecha, arrancando de onde não existe algo que possa sanar o débito eterno. Inevitavelmente em algum momento a, conta ficará negativa. E esse dia chegou.
Os resultados com os quais precisava conviver não vieram com a velocidade da lebre, nem transpareceram a certeza de que chegariam à linha final. Na verdade, eles pareciam mais a tartaruga: lentos, pacientes e permanentes. E, por vezes, deram a impressão de que, em algum momento, não seriam suficientes para alcançar o ponto que, naquele instante haviam alcançado.
Enquanto almoçava com as amigas, agia normalmente, e concordava com todos os comentários sobre a vida absurda de alguém que, claramente, não estava sentado à mesa com elas. Afinal, proprietárias do trono da vida perfeita, elas tinham cetros que as protegiam do carma do universo e isso as dava a possibilidade de opinar sobre tudo, mesmo que elas conhecessem apenas a própria realidade.
Até que falaram sobre uma colega do condomínio que foi descoberta em uma situação complicada de explicar no reality show que ela promovia da própria vida nas redes sociais. Mas, assim, constrangedor mesmo foi apenas para o marido dela, pois, para ela mesma, era apenas um momento bastante prazeroso.
Laura quase revirou os olhos cansada das mesmas observações e daquele manual da boa mulher, criado para trancá-las todas em jaulas. Porém, era mais fácil reproduzir o comportamento e as observações das outras. Lembrou que nem gostava tanto dessa colega. Assim, ficou mais fácil.
Enquanto as avaliações cortavam o ar e as gargalhadas costuravam a conversa, calada, ela pensava na descarga de prazer que todas aquelas mulheres sentiam cada vez que falavam algo que levava o grupo a gargalhar, mas não muito alto para não chamar atenção. Ao mesmo tempo, perguntava-se: qual outro prazer essas mulheres encontram na vida? Compras? Não imagina outra forma genuína de prazer. Sexo, com certeza, não seria uma delas.
Enquanto ria, desconcertada, por causa de uma outra questão abordada no grupo, agora dentro do amplo espectro da aparência, mas especificamente a roupa de algumas mulheres na academia, concordava com gestos e pensava no quanto sua vida renderia bons assuntos para o grupo.
Gostava de se divertir em casa olhando para o espelho ao pensar nos comentários que fariam a respeito. Só era engraçado se ela mesma encenasse. Na vida real, seria uma grande desgraça, pois arruinaria tudo que se esforçou para conquistar.
Seu casamento, que já não se sustenta, pelas enormes dívidas adquiridas para manter um padrão de vida impossível; a maternidade, que lhe dava mais ojeriza que alegrias, enquanto se esforçava para ser uma mãe dedica, não podia falhar naquilo que ela precisava com toda certeza gabaritar; o emprego detestável, que não rendia tudo que aparentava, como pagar por aquele almoço, por exemplo.
Além disso, todas elas a conheciam há pouco mais de cinco anos. Não imaginavam o que fora necessário para bancar os estudos na universidade particular de prestígio em um curso reconhecidamente caro e disputado. Não imaginam os empréstimos aos quais se submetera, nem o esforço que vazia para dormir e acordar naquela vida que exigia tanto dela, ao ponto de não ser possível saber quem era ela antes de todas essas escolhas. Ou até mesmo, quem ela poderia ser.
De certa forma, vivia feliz com o resultado. Sua família se orgulhava.
Mas, agora, estava ali, sentada com aquelas mulheres, e ria por dentro, não apenas da desgraça, mas de como enganava aquelas pessoas. Apesar de saber que não era a única que faz isso, pois nenhuma vida é tão perfeita e ninguém assumiria qualquer tipo de fragilidade.
Finalmente, chegou a hora do café. Despediu-se, dizendo que precisa encerrar a agenda da semana.
Dirigiu até o estacionamento de um supermercado bastante movimentado. Retocou a maquiagem e desceu. Entrou em outro carro.
Sorriu com um aceno de “boa tarde” para o homem que a espera com flores. Ele, marido de uma das suas companheiras de almoço, a beija romanticamente.
Olhando para seu reflexo no vidro do carro. Pensou… Calculou… Conformou-se.
Afinal, precisa de um novo denominador para fechar a conta que nunca bate.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.
