A primeira vez que vi o termo “mulheres de conforto” foi durante a leitura do livro Herdeiras do Mar, de Mary Lynn Bracht. Ainda no início, o desconforto estava certo. Mas, à medida que as páginas avançavam, esse desconforto revelou-se uma dor que toda mulher sente ao assimilar o sofrimento de outra mulher e nele entender a vulnerabilidade do seu próprio lugar no mundo.
O romance acompanha as trajetórias das irmãs Hana e Emi. A primeira, sequestrada por soldados japoneses que ocuparam o território coreano e obrigada a servir como escrava sexual, durante a Segunda Guerra Mundial. A segunda, décadas depois, em sua busca por respostas e justiça pelo desaparecimento da irmã.
Hana tinha apenas sete anos quando a mais nova nasceu, “a irmãzinha mais amada da ilha de Jeju”. Logo foi incumbida de ser a protetora de Emi. Tornar-se a irmã mais velha trazia algumas responsabilidades, as quais Hana assumiu de muito bom grado.
Emi era jovem demais quando Hana, seguindo os passos de sua mãe e das outras mulheres da ilha de Jeju, tornou-se uma haenyeo, um grupo tradicional de mulheres mergulhadoras, que se arriscam nas profundezas do oceano, mergulhando a cerca de 10 metros de profundidade, sem o auxílio de cilindros de oxigênio, em busca dos frutos do mar que garantem o sustento da família e da comunidade. “Nós mergulhamos no mar como nossas mães, avós e bisavós fizeram por centenas de anos. Esse dom é o nosso orgulho, pois não nos submetemos a ninguém, nem a nossos pais, nem a nossos maridos, nem a nossos irmãos mais velhos, nem mesmo aos soldados japoneses durante a guerra. Pescamos nossa própria comida, fazemos nosso próprio dinheiro, e sobrevivemos da colheita que o mar nos oferece”. Atualmente, essa prática sustentável e comunitária de pesca é considerada patrimônio cultural imaterial pela UNESCO.
Foi no verão de 1943, quando Hana tinha dezesseis anos, que uma manhã normal de mergulho transformou para sempre a vida da família. Quando emerge do oceano, carregando a sua cesta de abalones, como todas as outras vezes, Hana passeia os olhos pela praia em busca da irmãzinha. Não demora muito para avistá-la. O mesmo aconteceria com o soldado japonês, que caminhava em direção à menina.
Naquela época, já ouvia-se falar das garotas desaparecidas, que eram levadas para servir na guerra, embora Hana não soubesse quais serviços eram realizados por essas mulheres. Qualquer que fosse o destino, ela não permitiria que Emi tivesse que vivê-lo. A jovem haenyeo atirou-se nas águas em direção à praia e, antes que o soldado visse a pequena brincando na praia, atraiu sua atenção para ela, roubando para si o destino da irmãzinha.
Hana foi levada pelo soldado. O pavor que transbordava em seu corpo e a incerteza do que lhe aconteceria só eram abafados pelo alívio que sentia por ter protegido Emi.
No caminho, outras garotas, também aterrorizadas, se juntaram a Hana. Nenhuma sabia o que estava por vir. Nenhuma queria estar ali. Algumas, assim como Hana, haviam sido sequestradas, outras foram enganadas com promessas de trabalho e o desejo de ajudar a família.
No trem para o desconhecido, Hana descobre como seriam os seus dias. Quando Morimoto, o soldado que a tirou de Jeju, a escolhe como preferida e a leva para um quarto onde ela sofre o primeiro abuso. A obra, narrada em terceira pessoa, descreve, de forma crua e cruel, a dor de Hana enquanto Morimoto penetra seu corpo e sua inocência.
Com a chegada ao bordel, ou “estação de conforto”, na Manchúria, a violência sofrida por Hana e as outras garotas se intensifica. “A rotina no bordel é simples. Levantar, limpar-se, comer e então esperar no quarto a chegada dos soldados. Mais tarde, em geral depois das nove da noite, os soldados restantes são mandados para casa. Então ela se lava, limpa as camisinhas usadas, desinfeta e cobre suas feridas, caso tenha sofrido alguma naquele dia. Elas comem uma refeição escassa e depois vão para o quarto. Dez horas por dia, seis dias por semana, ela ‘serve’ aos soldados. É estuprada por vinte homens a cada dia. O sétimo dia é de tarefas domésticas”.
O termo “mulheres de conforto” foi atribuído pelos militares japoneses ao sistema de tráfico e escravidão sexual de mulheres asiáticas, em sua maioria coreanas, com o intuito de suavizar e ocultar a natureza das violências que lhes causavam.
No início do século XX, o Império Japonês estabeleceu, sobre o Leste Asiático, um domínio que incluía Taiwan, colonizada em 1895; a Coreia, inicialmente transformada em protetorado do Império, em 1905 e anexada em 1910, e a Manchúria, onde foi estabelecido um governo fantoche, em 1932. Com o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937), a Ásia se manteve em constante estado de guerra, que mais tarde se tornaria parte da Segunda Guerra Mundial. Nesse período, que se estendeu do início da década de 1930 até 1945, o Exército Imperial Japonês implementou e manteve o sistema de mulheres de conforto.
Estima-se que cerca de 200 mil mulheres coreanas foram sequestradas, enganadas e obrigadas a servir como escravas sexuais para os soldados do Império. Um número que fica ainda mais dolorido, quando se compreende que muitas dessas mulheres eram, na verdade, meninas de doze anos anos ou menos.
Paralelamente aos acontecimentos com Hana, ficamos sabendo das consequências do desaparecimento da filha mais velha, daquela família, a partir do ponto de vista de Emi. No verão de 2011, a senhora relembra a vergonha, a dor, a culpa por ter sobrevivido, a perseguição política sofrida durante a guerra das Coreias; o casamento forçado; as mortes violentas dos pais.
Em meio a tudo isso, a necessidade de não esquecer, mas o silêncio para não lembrar. Por anos Emi participou das “Manifestações de Quarta-Feira” (protestos semanais realizados ininterruptamente desde 8 de janeiro de 1992, em Seul), na esperança de reencontrar sua irmã ou pelo menos ter notícias dela, mas sem nunca confessar aos filhos o motivo que a levava ali.
“Vergonha é uma palavra pesada na mente de Emi. Ouvi-la sendo pronunciada machuca seus ouvidos. A vergonha que ela sente é totalmente enraizada e não tem nada a ver com a prostituição forçada de sua irmã. É mais profunda do que isso e se tornou uma parte dela que ela sabe que nunca vai desaparecer. A vergonha é a sua han. Vergonha de ter sobrevivido a duas guerras enquanto os outros à sua volta sofreram e morreram, vergonha de nunca ter se pronunciado por justiça, e vergonha por continuar vivendo quando nunca entendeu de fato o sentido da vida. Às vezes ela sentia como se tivesse sido trazida a este mundo apenas para sofrer”.
Lançado em 2020, Herdeiras do Mar lança luz a um tema que por muito tempo foi silenciado, escondido e negado. Por anos o Japão negou a responsabilidade desse crime. Em 1991, surgiram as primeiras denúncias públicas, quando a ativista e sobrevivente do sistema de escravidão sexual japonês Kim Hak-sun quebrou o silêncio e resolveu contar sua história, tornando-se a primeira mulher na Coreia do Sul a prestar esse tipo de testemunho publicamente, cobrando reparação e um pedido formal de desculpas do governo japonês. A partir de então, outras mulheres sobreviventes passaram a relatar suas experiências e a exigir medidas reparativas; em 1993, o Japão finalmente reconheceu o uso de bordéis; em 2015, Japão e Coreia do Sul selaram um acordo que inclui o pagamento de 1 bilhão de ienes para indenizações às vítimas sobreviventes, em troca, o assunto seria dado como encerrado e não mais seria mencionado. O acordo foi rejeitado por ativistas e sobreviventes, que não se contentaram com as medidas tomadas.
Na obra, as violências sofridas por Hana e Emi retratam as dores de milhares de mulheres que tiveram suas vidas e seus corpos violados e suas existências desumanizadas. Ao narrar as histórias de Hana e Emi, Mary Lynn Bracht dá voz às mulheres, que deixam de ser apenas números e estatísticas e trazem à tona seus relatos, suas memórias, suas lutas e seus nomes.
REFERÊNCIAS
BRACHT, Mary Lynn. Herdeiras do mar. Tradução de Julia de Souza. São Paulo: Paralela, 2020.
HICKS, George L. The comfort women: Japan’s brutal regime of enforced prostitution in the Second World War. New York: W. W. Norton & Company, 1997.
MILNER (LEE) BISLAND, Beverly; KIM, Jimin; SHIN, Sunghee. Teaching about the Comfort Women during World War II and the Use of Personal Stories of the Victims. Education About Asia, v. 24, n. 3, 2019. DOI: https://doi.org/10.65959/eaa.1613. Acesso em: 30 set. 2026.
Sobre a autora:

Shirley Bentivi
Graduanda em Letras pela Universidade Regional do Cariri. Estudante de História da mesma instituição.
