O amor não mandou recado

Seguro um balde carregado de sangue, suor e lágrimas. A camisa branca banhada de versos doloridos. Sigo entre pombos que buscam migalhas de pão na rua deserta, na madrugada que vai se esbranquecendo. As mulheres varrem as ruas e vão surgindo alguns bons dias. Os gatos observam os movimentos; outros se lambem.

Chego em casa, balde ainda cheio. Tomo banho e danço com o sabonete. Escuto um reggae, não sei quem canta. Visto a roupa, sento na rede para calçar o sapato. Lembro que faltam alguns dias para Finados. Houve um tempo em que andei no cemitério para apreciar flores e oferecer ternura: acendia velas e caminhava de mãos dadas. Este ano não vou ao cemitério.

Ainda sentado na rede, com os olhos cheios de brilho, sinto o gosto de bolo de cenoura com cobertura de chocolate; tenho que me apressar. Tomar café ligeiro, esquecer o bolo de cenoura com cobertura de chocolate, ele já não faz bem.

Passo pelo meu pai antes de ir para o trabalho; ele me abençoa três vezes, já que uma bênção é muito pouco para dias arriscados. Seguro o balde e sigo. Uma hora a gente chuta.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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