Sentou-se no ônibus e respirou fundo. Não lembra da última vez que fez algo assim, sozinha, pois mesmo as idas ao banheiro, em sua maioria, são acompanhadas de sua bebê, às vezes no braço, às vezes a deixava no carrinho em frente ao banheiro para que ela não chorasse muito e fosse possível controlar o ambiente.
Tinha uma consulta em um bairro distante. Era a primeira vez que deixava suas responsabilidades maternas para dedicar-se a um compromisso apenas seu, mesmo que fosse uma visita ao médico.
Encontrou ali uma possibilidade, pelo menos no ir e vir, ela poderia provar esse gosto de liberdade que nem lembrava mais como era senti-lo.
Desde menina, gostava de imaginar como seria desaparecer. Durante anos, guardou uma caderneta com possibilidades, como: para onde ir, como ir, renda, quanto economizar etc. E a principal delas: como nunca ser encontrada.
Aumentou o volume da música que tocava em seus fones de ouvido, para lembrar de quando pegava o mesmo ônibus para ir à faculdade. Nessa época, suas fantasias adolescentes ainda eram tão presentes em sua vida que se permitia criar trilhas sonoras para momentos que nunca aconteceriam. Agora, tudo não passava apenas de uma tentativa de esvaziar a mente.
Percebeu que se aproximava da parada próximo à clínica e não reuniu forças para se levantar. Permaneceu imóvel. Fixou o olhar no infinito e nem virou o rosto. Sentada, estava e lá permaneceu. Instantes depois, percebeu que uma onda de felicidade invadiu seu corpo e se prolongava em cada uma das articulações. Era a nostalgia da rebeldia que não se permitia ter desde que se tornou uma adulta.
Encostou a cabeça na janela e aproveitou a viagem da linha de ônibus mais longa da cidade.
Várias pessoas se sentaram ao seu lado, mas aquilo, pouco importava, pois, em sua imaginação aquela era uma das suas rotas de fuga e, dali, jamais saberiam seu paradeiro.
Acordou com uma freada intensa, percebeu que estava perto da parada final do transporte e ainda faltava algum tempo para voltar até a sua casa, pois estava perto da hora do almoço, e a pausa para refazer a viagem era maior.
Finalmente, desceu do ônibus. Respirou o ar da liberdade. Ali ela poderia ser qualquer pessoa, talvez usar um nome diferente, contar uma nova história sobre si. Pensaria sobre isso na próxima viagem.
Retornou ao ponto no horário marcado com o motorista e seguiu.
Com o ônibus em movimento, refazendo o mesmo trajeto até a sua casa, ela pensou: na próxima semana preciso marcar outra consulta.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.
