Meu contato mais direto com C.S. Lewis, escritor e teólogo anglicano irlandês, foi após o período de pandemia de COVID-19, que deixou um rastro de destruição pelo mundo afora. Olho pelo retrovisor da memória e me pergunto: como foi que aquilo aconteceu?
Fagner tem razão: alguém “Jamais entenderá o que é que eu” senti naquele momento. Desse retrovisor, lembro-me de uma conversa com a professora Francilda Mendes (católica praticante) sobre o trabalho que eu desenvolvo na Web Rádio Carrapato, todos os sábados das 17:00h às 17:30h, sobre os mais variados assuntos: livros, músicas filmes, pautas como maternidade, casamento, amores vividos e desfeitos, etc. Destaquei uma frase do Francisco Nascimento, idealizador e editor da Cafundó: “o programa do Nordestinados a Ler sempre traz uma mensagem positiva”. Nunca me dei conta, até aquele instante, das palavras de conforto que deixávamos todos os sábados.
Na hora, Fran me perguntou: “você já leu a obra Cristianismo Puro e Simples do C.S. Lewis?”. Pensei: “não foi aquele que escreveu As crônicas de Nárnia?”. Eu respondi: “não”. “Se eu te der, você ler?”. A obra é uma compilação de conversas de rádio levadas ao ar entre os anos de 1941 a 1944, período da II Guerra Mundial, quando Lewis estava em Oxford, tentando não só sobreviver, mas compreender aquele período nebuloso.
O cristianismo proposto por Lewis abraça o humano. O teólogo afirma que as grandes guerras religiosas não estão dentro dos campos de batalha, mas dentro de cada um de nós. Confesso Cristianismo Puro e Simples não é uma obra fácil, mas necessária já que destila a fé cristã, além de discutir temas como amor, prudência, justiça, perdão, etc.
Leitura concluída, Fran disse que eu precisava conhecer Cartas de um diabo aprendiz. Seria outro presente! Agora em 2026, estou eu a falar com a professora Fabiana Lazzarin (católica praticante) sobre minhas leituras, ela me pergunta: “Lu, você já leu Cartas de um diabo aprendiz?”. Fui contar a ela toda essa história que eu acabei de contar a vocês e no final, ela disse: “Fran não te deu livro, eu vou te dar”. Minha melhor leitura (até o momento) do ano.
A obra encontra-se dividida em dois momentos: Livro I – um prefácio e trinta e uma cartas; Livro II – Prefácio: Maldonado propõe um brinde. A dedicação ficou para o romancista inglês, J.R.R. Tolkien, que vocês devem conhecer pelas obras: O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954).
Literalmente é uma amizade de peso: Lewis e Tolkien. Ambos pertenceram ao mesmo grupo literário Inklings em Oxford. Inclusive os rascunhos das obras As crônicas de Nárnia e Terra Média foram discutidas neste grupo. Por isso, a necessidade de frequentá-los, já que se trata de espaços de circulação e debate da literatura.
A influência que um exerceu sobre o outro ultrapassou o campo literário. Tolkien foi o responsável pela conversão de Lewis do ateísmo ao cristianismo com o argumento de que a fé cristã era um “mito verdadeiro”.
Conta-se que Tolkien, mais católico e tradicionalista, discutia com Lewis sobre a escrita do amigo, que não se aprofundava na fé na cristã. O certo é que ambos venderam juntos 250 milhões de livros colaborando para a propagação do gênero fantasia e refletindo sobre o papel do cristianismo na sociedade.
A obra começa com duas epígrafes: o diabo “… não suporta o desdém” (Martinho Lutero); e “… não suporta ser motivo de chacota” (Thomas More). Em seguida, um prefácio em que destaco o ponto mais importante do texto, ou melhor, os dois erros mais graves que nós cometemos em relação aos demônios: “O primeiro é não acreditar na existência deles. O outro é acreditar que eles existem e sentir um interesse um interesse excessivo e doentio por eles”. Estou no primeiro grupo.
O mais intrigante, divertido e irônico é que por meio das cartas trocadas entre os diabos, nós leitores, não só aprendemos sobre a mente humana, como sobre os desígnios do Inimigo (Deus). Além disso, nos damos conta que, em algum momento da vida, já fomos tentados (as) pelo diabo.
Eu poderia discorrer sobre todas as cartas do livro, pois cada uma delas traz uma temática e um modos operandi usado pelo diabo para afastar “o paciente” das garras do Inimigo. Destacarei apenas quatro para não deixar esse texto tedioso.
Na Carta II, o paciente torna-se um cristão. Maldonado pede ao sobrinho Vermelindo que não entre em desespero, já que se trata de “uma breve estada no campo do Inimigo”. Eles têm um grande aliado para acabar com essa conversão: “a própria Igreja”. A mesma “Igreja que vemos expandir-se ao longo dos tempos e do espaço, arraigada na eternidade, terrível como um exército levantando suas barreiras”. Por isso Vermelindo precisar estar atento e forte, quando o paciente entrar neste espaço: este precisa decepcionar-se! Para isso, é necessário criar um lugar desagradável movido à bajulação, com “livrinho intacto, contendo um tipo de liturgia que ninguém entende”, e um outro livrinho surrado com “várias canções religiosas, a maioria de mau gosto, e em letras miúdas”. Como se não bastasse, quando o paciente sentar-se, verá no banco “aquela turma de vizinhos que havia evitado até então”. Quando terminei de ler essa passagem, fiquei pensando nas diversas vezes em que fui à igreja e fui recebida com um jornalzinho com letras minúsculas as quais não li. E meus companheiros de banco que conversam sobre o restaurante que iriam após a missa? E o sermão do padre: o casamento entre a cantora Ludmilla e a Bruna? Será que tudo isso foi obra do “Senhor das profundezas” para me tirar dali?
Na Carta III, Maldonato pede a Vermelindo que entre em contato com Maldiposo para que este possa ajudá-lo na empreitada de livrar o paciente do Inimigo. E indica quatro métodos para auxiliar o sobrinho a galgar seu intento:
- Manter a mente dele (paciente) longe dos deveres elementares;
- Certificar-se que as orações do paciente direcionadas do paciente para a mãe dele sejam “sempre muito espirituais”, ou seja, que sejam focadas no espírito e não no reumatismo;
- Tornar insuportável o convívio entre mãe e filho, afinal, quando dois seres humanos vivem juntos por muitos anos é comum que os trejeitos de um passe a incomodar o outro.
- Despertar o ódio doméstico “(…) as palavras em si não são ofensivas”, mas o “ser humano diz coisas que vem com o propósito expresso de ofender e, ainda assim, queixa-se quando ele é ofendido”.
A cada carta lido, fico convencida das tentações da existência humana.
Na Carta VII, o que mais me chamou atenção foi o fato de Maldonado incentivar Vermelindo a tornar o paciente um extremista: “patriota” ou “pacifista”. Para a teoria diabólica, “Todos os extremos, exceto a devotação extrema ao Inimigo, devem ser encorajados”. Não tive como não me ater ao cenário político mundial, especialmente o brasileiro, que desde o ano de 2018, é descrito pela mídia como o mais sombrio e radical desde o Golpe Militar de 64.
Por fim, na Carta VIII, Maldonado pergunta ao sobrinho se ele conhece a “Lei da Ondulação?”, ou melhor, “períodos de riqueza e vivacidade emocional e física” se alternando com “períodos de entorpecimento e de pobreza”. Vermelindo é aconselhado a se aproveitar dos tempos de escassez, antes que o Inimigo encha o universo de “um monte de pequenas réplicas repugnantes de si mesmo”. Eles querem tão somente “gado que possa acabar servindo de comida”. Ele, não. Seu desejo é criar “servos que possam acabar se tornando seus filhos” (…) “Nós desejamos sugar, ele deseja retribuir. Nós somos vazios e queremos ser preenchidos, ele é pleno e, por isso, transborda”.
Frustração, egoísmo, ansiedade, amor, castidade, gula, orgulho, espiritualidade, covardia… Cartas a um diabo aprendiz discute essas e outras temáticas com uma linguagem divertida e irônica, levando-nos a pensar no que de fato está por trás das nossas ações e intenções.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
