Escutava da varanda aquela voz que acordava toda a cidade às dez horas da manhã. Era um tapa na cara para ninguém ficar dormindo. Desesperadamente, gritava: “Acorda Gabriel, acorda Gabriel, acorda Gabriel”.
As pessoas brilhavam os olhos querendo que Gabriel acordasse. Gabriel não dormia.
Como Gabriel não acordava, seguiram em procissão. Um bloco preto levava o menino. Os olhos cantavam despedidas.
A família o dividiu em partes; a sua partilha se fez esperança em outros corpos.
Dias antes, ajoelhado, Gabriel nem teve tempo para rezar. No outro dia brincava de bola, vestia-se de filha dos Judas e dançava com suas pipas nos céus.
“Acorda Gabriel, acorda Gabriel”, continuou gritando sua mãe.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
