Com quantos textos se faz um escritor /leitor?

Quando me esforço para lembrar das minhas primeiras memórias com a leitura, sempre me vêm à mente as revistas, a assinatura da revista Nosso Amiguinho, que ganhei de presente da minha mãe no início dos anos 90, as revistinhas da Turma da Mônica e os almanaques que eram a premiação pelas boas notas do colégio que eu aproveitava durante as férias.

Falando em tantos materiais de leitura, para uma criança que ainda não tinha nem dez anos, até parece que éramos uma família com muitos recursos financeiros. Mas a verdade é que, se hoje estou aqui escrevendo sobre a minha relação com a literatura e a escrita, é porque o projeto da minha mãe de me tornar uma adulta funcional, crítica e consciente, funcionou. Obrigada, mamãe.

Em seguida, me remeto à biblioteca do colégio em que estudei durante o ensino fundamental, o Colégio Juvenal de Carvalho. Lembro das feições da freira que trabalhava como bibliotecária e do quanto ela foi minha cumplice nas inúmeras vezes em que me escondi entre os corredores das estantes, onde era proibido os alunos entrarem.

Acredito que ela me entendia e, talvez, percebesse no meu olhar aliviado o quanto me sentia bem naquele lugar.

Como era um colégio de freiras,  e eu era uma criança, alguns livros eram “proibidos”. Mas nossa cumplicidade ia além das normas da censura e, vez ou outra, tais exemplares passeavam pela minha casa, “escondidos”. Era emocionante.

O pequeno colégio cedeu espaço a um desses centro de estudos que preparam o aluno para o vestibular. Não gostei da troca, mas fiquei fascinada pela enorme biblioteca e me rendi.

Foram muitos aluguéis e multas pagas por atraso, porque eu criava um apego enorme e não queria devolvê-los às prateleiras.

Naquele período, a questão financeira era bem complicada e os livros obrigatórios da escola já demandavam bastante dinheiro em casa.

Agradeço às listas de vestibular das universidades. Muitos dos livros que li “por obrigação” marcaram profundamente a minha vida, como Os sertões, de Euclides da Cunha.

Por esse livro, vivi minha primeira aventura escondida dos meus pais na adolescência em Fortaleza, quando matei aula e conheci, pela primeira vez, o sebo “O Geraldo”. Naquele dia, comprei uma edição de 1946 e conheci outros pontos interessantes do centro da cidade.

Saudades.

Nessa época, já gostava de registrar em diários o que não conseguia verbalizar para o mundo.

Falava da minha família, das amigas, dos amores e, especialmente, das tentativas de conhecer os meus próprios sentimentos e das inquietações sobre o futuro. Lembro de escrever: “não sei o que quero para a minha vida, mas sei exatamente o que eu não quero”.

Alguns anos passaram, escolhi meu curso pela quantidade de leituras que teria, quanto mais páginas, melhor. Foi assim que cheguei à Universidade de Fortaleza para cursar Direito e me embasbaquei com as possibilidades e a biblioteca.

Mas nessa época a vida era rápida e dura como uma broca de furar parede, tudo acontecia tão instantaneamente que em um estalar de dedos os semestres passaram e pouco aproveitei aquele lugar fantástico.  

Me formei e fui engolida por uma depressão.

Foi na Biblioteca Estadual do Ceará que reencontrei com os livros e com a escrita, pois a convite de uma grande amiga passava horas em seus corredores lendo, folheando e escrevendo, me abastecendo de esperança. Obrigada, Rici.

Mas esses escritos são apenas meus.

Nos anos seguintes, mesmo engolida pelas obrigações profissionais sempre estava com um livro na mão e, naquele momento já podia comprá-los, que felicidade. E, então, tentei apurar o que seria meu gosto literário.

Até que, por causa de um concurso de redação que eu não ganhei, conheci meu companheiro de vida e sonhos. Pois ele ganhou e leu para todos as palavras que tinha escrito, e mesmo com toda a minha fúria por não ser ganhadora, dei o braço a torcer ao elogiar a leitura de seu texto.

E, claro, o primeiro presente que ganhei no namoro foi um livro.

Sendo leitora, a escrita nunca foi um problema para mim, mas me refiro aquela que guardo nos meus cadernos e jamais publicaria.

Até que eu conheci Luciana Bessa e aceitei o convite para publicar no blog literário Nordestinados a Ler. Em junho de 2024, li pela primeira vez meu nome como autora de um texto em que eu não seria a única leitora. Obrigada, Lu.

Sinto que, a partir desse momento, alguém arrancou uma mordaça da minha boca e deixou que eu gritasse tão alto que qualquer pessoa, por mais longe que estivesse, pudesse me escutar.

Nesse processo, me surpreendi escrevendo por raiva, medo, esperança, solidão, amor e saudade. Nunca senti vontade de escrever invadida pela felicidade. Esse sentimento me inundava depois da escrita, nunca antes.

Fui taxada de triste, furiosa e melancólica.

Mas nada disso me definia intimamente, porque o texto e as palavra utilizada funcionam para mim como retrato de um momento e que a depender de como seja, nem sempre serão felizes.

E me veio uma pergunta. Sou escritora?

Rapidamente respondi que não. Nunca precisei me convencer disso, é algo claro para mim. Pois, por admirar tanto esse ofício e todos aqueles que foram responsáveis pela minha formação humana através dos livros, jamais me colocaria em situação semelhante a qualquer um deles.

Por isso, acredito que receber o título de escritor é algo tão grandioso que ainda não encontrei um ponto da minha régua para definir em que momento através da minha escrita tão particular e sentimental poderei ser merecedora dessa definição.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.

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