Olímpia acordava todos os dias às cinco da manhã: seu lema era ganhar tempo. Em muitos dias, já estava de pé antes mesmo do sol esquentar o beiral da janela, acreditava que dormir no máximo cinco horas por noite era suficiente para descansar sua mente e o corpo.
Tinha uma rotina rigorosa. Não aceitava que os outros atrapalhassem a sua marcha enquanto se deslocava para o trabalho e os demais compromissos do seu dia, nesse caso, era inadmissível perder tempo.
Se deslocava em seu carro ou de carona com sua colega de trabalho, sempre com fones de ouvido, precisava utilizar bem o seu tempo, pois ele era caro e não admitia passar tanto tempo de forma inútil dentro de um transporte, precisava usá-lo bem.
Em uma sexta-feira, dessas bem comuns, em que apenas contamos os minutos para encerrar o horário comercial, bater o ponto, ir para casa e deitar no sofá, Olímpia recebeu flores.
Com o seu foco em utilizar o seu tempo de forma absurdamente produtiva, esqueceu de levar o seu presente para casa. Quando chegou e o marido a questionou pela ausência do presente em suas mãos, ela lembrou que elas tinham ficado enfeitando a sua mesa, que na segunda-feira seria possível levá-las para casa.
Na semana seguinte, se deparou com um buquê que não tinha mais o atributo da beleza no pouco tempo que restara até se tornar lixo. Não tinha foto. Afinal, o levaria para casa. Era desperdício de tempo fotografar. Não tinha muita lembrança da sua beleza, pois não o contemplou.
E, mais uma vez, retornou para casa. Outro dia. Outro dia. Outro dia. Na sua busca por ganhar tempo, não perder tempo e usar bem o seu tempo, perdeu a beleza de tudo e todos que estavam a seu redor.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.

Que texto maravilhoso, atual e pertinente.
Quando eu “crescer”, quero escrever assim como você.
Espero que muitas “Olímpias” se dêem conta do quanto perdem, por estarem no “automático”.
Parabéns!