A peça teatral As Anjas, dirigida por Mauro César, partiu da dramaturgia de Ueliton Rocon e, desde que foi realizada no contexto do Grupo Teatral da Universidade Regional do Cariri–GRUTEURCA, tornou-se umas das experiências teatrais mais marcantes, bem-sucedidas e longevas do teatro produzido no Cariri.
Não é possível tratar da história do teatro na região sem mencionar essa obra que, desde os tempos de sua primeira montagem, quando o diretor e as atrizes do primeiro elenco eram estudantes da Universidade Regional do Cariri–URCA, já causou a melhor das impressões no público e na crítica.
Eu a assisti, pela primeira vez, quando era um estudante da URCA ávido por vivenciar experiências artísticas, de modo que essa peça se transformou, de imediato, em algo inesquecível. Lembro-me de que assisti ao espetáculo repetindo, mentalmente, o seguinte: “Que esta peça não acabe nunca!” Quando a apresentação acabou, pairou o desejo de revê-la, o quanto antes, tal o impacto que ela havia me causado. A sensação foi compartilhado por amigos e amigas que a assistiram comigo — uma delas, a propósito, tornou-se integrante do elenco anos depois: Katyússia Freitas.
As Anjas é uma peça cuja enredística envolve um segredo compartilhado por personagens femininas entre cômicas e densas que, no passado, foram estudantes de um colégio de freiras e que, depois de anos de distanciamento, se reencontram. Elas chegam ao local do encontro, com personalidades e experiências existenciais que são expostas aos poucos, e a atmosfera de mistério que lhes circunda se mostra com intensidade (tudo isso regado a momentos hilários). O aspecto cômico dá a tônica ao espetáculo, que desperta o riso com maestria, porém as personagens, com suas narrativas construídas no irremediável da vida, fisgam o público em outros lugares. Elas detém camadas complexas, sobretudo por serem mulheres com todas as implicações que o ser mulher representa em uma sociedade ainda lastreada pelo patriarcado.
Assim, enquanto o mistério paira (e o público fica totalmente envolvido nesse mistério), surgem em cena: Amélia, Afonsina, Penha, Deise, Eulália e Constança. Elas estão ligadas a um passado que tentaram apagar, mas, nas voltas do mundo (e da vida com seus reveses), reencontros podem ser inevitáveis. Nesse contexto, subsidiadas por texto criativo e instigante, as atrizes têm como construir excelentes interpretações (e elas o fizeram sempre que as vi atuarem).
A segunda vez que assisti As Anjas, no Teatro Rachel de Queiroz, no Crato, foi perceptível o carinho do público pela peça. O momento foi concorrido, pois havia imensa expectativa do público para reassisti-la. Para mim, essa apresentação atendia ao desejo de rever essas personagens (com suas histórias, experiências, “pecados” e, sobretudo, complexidades tragicômicas) deslizando pelos palcos. Revê-las, naquela ocasião, foi uma experiência inesquecível.
Depois, reencontrei As Anjas no Centro Cultural Banco do Nordeste–CCBNB-Cariri. A temporada dispôs de várias apresentações e, em todas elas, houve grande procura do público. As sessões foram sempre lotadas, com o público totalmente rendido ao espetáculo e com uma energia difícil de descrever em palavras. Foram noites de ampla fruição artística, de catarse absoluta e de contato profundo com o teatro — esta arte tão indispensável à sensibilidade e à vida.
Ao longo dos anos em que a peça As Anjas foi apresentada, tantas atrizes estiveram vinculadas ao projeto: Fran Calixto, Luísa Martins, François Alcântara, Erika Souza, Katyússia Freitas, Mirela Tavares, Bertha Lúcia, Tatiane Araújo, Débora Cristina, Rita Cidade, Muriel Paulino, Paula Minéia e Irany Vieira. Essas atrizes merecem aplausos, pois fizeram (e fazem) parte de um dos espetáculos teatrais mais significativos do Cariri.
Agora, em 2026, para nossa comoção e alegria, As Anjas voltaram! Elas já realizaram apresentações em: Iguatu, Crato e Juazeiro do Norte. Além disso, merece comemoração o fato de que elas se apresentarão, em breve, na Mostra SESC Cariri de Culturas de 2026, em três cidades: Nova Olinda, Crato e Juazeiro do Norte. Estamos na maior expectativa para que elas passeiem por várias cidades, porque rir é um alento para a alma e, com elas, temos a garantia do riso. Elas trazem riso, sim, mas trazem, também, comoção, catarse e reflexões diversas. Por isso tudo, e mais um pouco, elas são necessárias demais!
O Grupo Oitão Cênico realiza esse espetáculo com algumas atrizes que integram o elenco desde a primeira formação, como é o caso das notáveis e inesquecíveis: Rita Cidade, Paula Minéia, Muriel Paulino e Irany Vieira. Nessa nova temporada, integram o elenco: Leka Lourenço, Sâmia Ramare e Raqueline Barros. Além da excelente direção de Mauro Cesar, participam da parte técnica: Edmilson Soares, Joseph Olegário, João Heriberto, Edceu Barbosa, dentre outros.
O retorno d’As Anjas é um acontecimento a ser comemorado. Consideramos valioso demais esse momento, pois essas pessoas dedicadas ao teatro, esta arte linda e desafiadora, abraçaram a oportunidade de compartilhar o que há de melhor na arte com um público que sente saudade de suas peripécias enriquecedoras do espírito. Diante disso, assim como eu falei para mim mesmo, na primeira vez que assisti ao espetáculo, o quanto eu queria que a peça não acabasse nunca, gostaria de dizer, agora em público, que essa peça, tão amada e inesquecível, não acabe nunca! Torço para ela retornar, hoje e sempre, como uma fênix-caririense-reluzente-e-renovada, porque a esperaremos de braços e corações abertos!
Vida longa às Anjas!
Sobre o autor:

Émerson Cardoso
Cícero Émerson do Nascimento Cardoso é doutor, mestre, especialista e graduado em Letras. Publicou: Breve estudo sobre corações endurecidos (2011), Romanceiro do Norte Juazeiro (2014), A Revolta de Antonina (2015), O Casarão sem Janelas (2018), O baile das assimetrias (2021/2022), Jornadas (2023), Romanceiros (2024) e Trilogia para o Cariri Cearense (2025). Recebeu: menção honrosa no XX Prêmio Ideal Clube de Poesia (2018); prêmio no VII Prêmio SESC de Contos; prêmio no I Prêmio Literário Demócrito Rocha–Categoria Poesia (2024); destaque no XXIV Prêmio Ideal Clube de Poesia (2024) e foi finalista do V Prêmio Caio Fernando Abreu de Literatura (2024). Foi um dos organizadores dos livros: Antologia Poética: Escritores do Cariri (2019) e Poemates Rosarvm (2019). Organizou os livros: Juazeiro tem artistas, Juazeiro tem poesia: Manifesto Poético (2024) e Haicai-Cariri: antologia de haicai (2025).
