Atendi a porta, mandei mensagens pelo whatsapp, coloquei o jantar do filho.
O tempo se foi. Ele é assim, escorregadio, escapa de nós rapidamente. O tempo que imaginei empregar em algo produtivo deslizou sem que eu percebesse. Atônita, tento entender esse processo de fuga.
O tempo foge e assim fujo de mim mesma, porque meus desejos e planos se esvaem antes de serem realizados e a angústia me pega de assalto e se instala, barulhenta, no meu corpo e na minha mente. Ela diz que sou improdutiva, desconcentrada, falha.
De mãos dadas com a angústia chega à ansiedade, essa fera de cuja boca escorre sangue, que crava as unhas afiadas no meu corpo, às vezes devagarzinho, deliciando-se em me torturar, às vezes de forma tão vertiginosa, que sou atirada num redemoinho do qual só consigo sair com a roupa rasgada, os olhos em pranto e a carne trêmula e dilacerada.
Meus olhos ficam tão embaçados que não consigo enxergar adiante, confundo as datas, perco-me na ordem do dia, temo. Transformo pequenos acontecimentos em tragédias.
A ansiedade também me avisa quando perco o tempo certo das coisas.
Sentimos que perdemos o tempo certo das coisas quando temos um relógio dentro de nós, quando absorvemos a noção cultural de tempo linear, que nos informa que há um momento específicopara cada evento da vida, que devemos seguir uma cronologia, como se a existência consistisse numa linha esticada em que há a hora adequada para namorar, cursar faculdade, fazer pós-graduação, casar-se, ter o primeiro filho, ter o segundo, não ter mais nenhum, porque três filhos são demais.
Desde muito cedo, recebemos informações, de forma direta e indireta, de que seguir o fluxograma é a métrica do sucesso. Ao contrário, seremos fracassadas.
Somos bombardeadas ainda com mensagensque traçam uma linha demarcatória entre a juventude e a velhice, indicando o que não está mais autorizado às mulheres à medida que o tempo passa. Velha, seu tempo acabou! Não há a menor necessidade de estudar, sua memória e cognição não são mais as mesmas, você não pode vestir roupa curta porque isso é vergonhoso, suas pernas flácidas estão aí para impedir tal indecência. Vestir biquíni na praia, então nem pensar! Namorar um homem mais jovem? Que ridícula!
As velhas são obsoletas. Por isso são jogadas nos quartos escuros das inutilidades. Ah, mas devem cuidar dos netos, cozinhar, arrumar a casa, costurar. Servir.
Estou aprendendo a rasgar as imposições culturais que intentam amordaçar minha expressividade e me apreciam gentilmente silenciosa e sorridente, alheias ao fel que possa descer pelas minhas entranhas e ao meus rosnados pela casa.
Devo ter compromisso com a vida dentro de mim, com a fome que sinto, com meu sorriso, com meu coração pulsando, com o brilho dos meus olhos. Quero sentir que viver não foi apenas a repetição mecânica de atos, mas a exploração curiosa das possibilidades.
Quero viver um caso de amor com o tempo. O tempo apaixonado que não me apressa, que senta comigo na varanda, que me dá espaço para conversar, tomar café, andar pela areia, salgar o corpo nas águas do mar, cantar, que me dá espaço para olhar. Rompo com o tempo tirano que me avisa que tenho apenas quinze minutos para tomar um banho, para sair de casa, para fazer supermercado, para deixar o filho na escola.
Quero parar o relógio para o mundo amanhecer devagar, para me alongar na existência, encontrar minhas amigas, aprender a dançar, contar estrelas.
Sobre a autora:

Dina Melo
Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.
