Perdida na confusão dos meus pensamentos, lembrando o quão desafortunada eu sou, com os olhos pesando por conta do analgésico que tomei para curar as dores do corpo, pois as dores da alma parecem não ter cura, ele chegou ali para dividir o banco velho da pequena pracinha do ponto de ônibus. Mais à frente, descobri que era para dividir também a dor da alma.
O bebum, cambaleando de lá para cá, segurando uma garrafa velha de vinho barato, pediu licença em meio a um soluço e sentou-se ao meu lado.
Pediu para eu olhá-lo enquanto balbuciava algumas palavras trocadas, e minha resposta era apenas um único gesto: balançar a cabeça em confirmação. Aquele papo eu conhecia: sabia que era conversa de bebum.
— Olhe, eu tenho um grande desgosto…
Já fiquei ali focada, porque de desgosto eu sei muito, e tentei cobrir o meu com o dele.
Começou ele:
— Eu tenho duas filhas, as duas formadas professoras. Eu vou já para casa… para casa não, para o meu quarto. Daquela casa, é só o quarto que eu ocupo. Tem dez anos que não tenho nada com minha mulher, mas ela mora lá. Dorme em um quarto, e eu em outro. Mas todo o dinheiro que eu tenho eu dou a ela.
Daí já imaginei que era desgosto amoroso, a desgraça do homem.
Parou por alguns segundos, limpou as lágrimas, deu mais uma golada na garrafa de vinho e vi, junto com aquele gole, descer o nó na garganta. Então continuou:
— Eu tenho saudade da minha mãezinha. Não tem nada pior do que não ter a mãe. Lembro quando eu era jovem, podia correr para ela quando alguma coisa doía. Eu sou agricultor. Estas mãos grossas são do trabalho na roça. Catava feijão com ela. Nunca se esquece a mãe. Esquece-se tudo, menos que um dia se teve mãe. Nunca deixei de ter as mãos grossas assim, mas eu parei. Não quero voltar para a roça mais não, porque lembro da minha mãezinha. Agora são mãos grossas de varrer praça. Eu sou gari, mas tenho desgosto da vida, e desgosto é coisa que não tem cura.
Então eu trabalho das seis da manhã até as cinco da tarde aqui nessa pracinha. Sou eu quem limpa. Todo dia. Todo mundo aqui me conhece. Eu varro tudo, deixo tudo limpo, e assim o dia vai passando. E, no fim da tarde, quando entrego a vassoura, eu bebo. Mas é que eu gosto de beber. Não faço mal a ninguém. Nunca relhei um dedo nas minhas filhas.
Eu bebo, chego em casa e vou conversar com Dudinha e Lau, que não são minhas filhas, mas são minhas passarinhas. Elas gostam de mim, sim. Não olham se estou sujo e cheirando a pinga. Chego, abro a gaiola, e elas vêm para o meu ombro e puxam estes tocos de barba aqui, ó…
Passou a mão na barba rala.
— Nunca fiz mal a ninguém, a não ser a mim mesmo.
Chorou.
E, como num súbito, sorriu e disse, gargalhando:
— É muito desgosto. Tanto que peguei o carrinho velho um dia, desci a ladeira ali da saída e pensei em botar o carro para capotar. Eu queria morrer.
Chorou novamente. Dessa vez, as lágrimas não cessaram.
Senti um pouco da sua dor, porque também lembrei da minha.
Muita gente guarda suas dores e vai vivendo sem deixá-las sair. Uns as afogam no trabalho, outros no álcool, e para alguns apenas o fim lhes basta.
Levantei-me, coloquei os fones e saí ouvindo “Dias Impossíveis”, de Seu Pereira.
Sobre a autora:

Taynara Oliveira
Graduada em Letras pela Universidade Regional do Cariri (URCA).

“Já fiquei ali focada, porque de desgosto eu sei muito, e tentei cobrir o meu com o dele.”
Parabéns, Taynara!!!
Muito bom!!!