Da série: cartas ao universo IV

L,

Na alvorada de hoje, refleti sobre as barreiras que criamos como forma de justificar a não realização de alguns sonhos. Antes de finalizar essa reflexão, passei adiante nos pensamentos e inicie alguns questionamentos sobre os motivos que nos levam a criar tais impedimentos. Em meio a tantas dúvidas, compreendi que há um universo dentro de nós a ser explorado.

Por isso, lembrei de você. Não como exemplo de pessoa que cria muros e se cerca de desculpas para não prosseguir, longe disso. Mas como alguém que desbravou a mata do conhecimento e a dominou, transformando-a em conhecimento científico.

Diante disso, escrevo para perguntá-la. O que a move?

Pensei em algumas respostas, na tentativa de não incomodá-la enquanto vence as falhas dos incompetentes, as vicissitudes do dia a dia e reúne forças para domesticar todos os leões que aparecem e rugem, tentando amedrontá-la.

Pensei que talvez o ego fosse uma boa resposta, mas, para que funcione de forma persistente, e avance por tanto tempo, haveria um desequilíbrio pessoal constante, em que as pulsões primitivas do indivíduo não permitiriam, de alguma forma, que um alvo me definitivo fosse alcançado, levando-a a outros caminhos diferentes do almejado.

Acredito que, na busca do “eu ideal”, também não seria suficiente, pois, em algum momento de provação, quando a dor ultrapassasse a vontade e a levasse a perguntar por que passar por toda essa abdicação, haveria de desistir, não bastando para justificar tamanho esforço.

No seu caso, não há muito a dizer sobre reconhecimento, apesar da sua relevância dentro da dialética social e da adequação do indivíduo a partir do olhar daquelas que o cercam. No entanto, exatamente pelo processo contínuo de mudança inerente ao contexto em que ele existe, não funciona como um combustível permanente na busca incessante pelo conhecimento.

Logo, reconhecimento não lhe falta, ainda que, muitas vezes, você se surpreenda com algumas manifestações. Você tem consciência do seu valor.

Como não consigo imaginar um fator isolado que seja bastante para explicar as suas escolhas, encontro a disciplina e a sede incessante pelo conhecimento como possibilidades. A primeira pode manter a constância, transformando o esforço diário naquilo que nos torna capazes de fazer escolhas conscientes que nos ajudem a alcançar objetivos a longo prazo. A segunda, por sua vez, é o impulso para arrancar as amarras limitadoras e conhecer a verdade que poucos têm coragem de desvelar, pois o conhecimento é como um alimento que agrada ao paladar e nos nutre, mas também nos deixa em uma condição de dependência de todos os seus nutrientes.

Percebo que são infindáveis as possibilidades e que nenhuma delas, isoladamente, seja satisfatória para justificar o que a move. Seria simplória reduzir todas as conquistas a apenas um motivo, que como pude perceber, jamais seria suficiente. Disso não tenho dúvidas.

Visto isso, reformulo a minha pergunta.

O que não a deixa parar?

Carinhosamente,

L.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *