Da série: cartas para o universo II

R.,

Você consegue lembrar como éramos quando nos conhecemos?

Passamos pela vida contando os grandes acontecimentos. Se pararmos para pensar, quanto tempo perdemos sem celebrarmos as pequenas alegrias ou mesmo sem darmos conta do quanto mudamos fisicamente durante esses intervalos. Mas a vida passou. Nos agarramos a outras realidades, gostos e pessoas.

Pergunto, ainda somos as mesmas?

Dessa maneira, podemos considerar que ainda somos amigas?

Grandes mudanças nos ocorreram durante a vida. Observo atentamente o espelho e procuro o que há em mim que seria a mesma dos nossos treze anos. Da época em que para nós o estojo da escola era importante, em que matávamos as aulas de educação física para passar mais tempo na biblioteca e compartilhávamos as mesmas paixões.

Quando perdemos aquelas meninas?

Sinto que, ao longo desses anos, me despetalei como uma flor e me tornei semente de novas flores. Assim como o barco que teve as tábuas substituídas, trocamos os nossos medos, a medida das nossas vitórias, as referências do nosso sucesso e a crença de como deveríamos caminhar rumo ao nosso futuro. Nada permanece igual.

Caíram as pétalas que nos protegem e nos lançamos em outros lugares para frutificar. Passamos por perdas difíceis, separações cruéis e lutos íntimos que alteraram profundamente nossa forma de olhar para a vida: ora embaçada pela nossa respiração desesperada, ora nítida pelo excesso de oxigênio nos nossos pulmões.

Talvez precisemos modificar a pergunta. Em vez de nos questionarmos sobre a nossa identidade atual e sobre a permanência da nossa amizade, deveríamos pensar: se reuníssemos todas as pétalas caídas e, como no barco de Teseu, as tábuas voltassem ao seu lugar, ainda encontraríamos as mesmas meninas de treze anos dividindo livros e compartilhando sonhos?

Mas, penso que diferente do barco, que é material, concreto e visível, nossa vida não retrocede. Ela segue em diante sempre. Para ela, não há retorno, apenas a certeza da continuidade, estando vivas ou mortas.

Então, o que faz ainda sermos amigas?

Assim como a intimidade, que para mim está guardada dentro de um núcleo no íntimo do humano, para que nem todos que estão ao nosso redor possam alcançar, existe um receptáculo que guarda a nossa essência.

E, para mim, o seu receptáculo não parece ter sido trocado nem alterado pelas inúmeras transformações que se constituíram sobre você ao longo dos anos. A beleza que admiro quando os raios de sol refletem no seu rosto independe da cor do seu cabelo ou da aspereza que o tempo trouxe à sua pele.

Você permanece solar. Lembro do cheiro de maracujá maduro sempre que precedem os instantes que encontrarei com você, mesmo que eu esteja apressada, pareça desatenta e o nosso tempo seja tão corrido.

É isso. Elaborei minha resposta.

Para mim, ainda somos as mesmas amigas, mesmo com a distância e o tempo.

E, para você, o que permanece?

Sua querida,

L.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.

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