“Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar”.
No dia 30 de junho, estive no Banco do Nordeste Cultural Cariri (CCBNB-JN) para falar sobre “As mulheres invisíveis na/fora da literatura”. Como são milhares, infelizmente, escolhi como recorte o romance A vida invisível de Eurídice Gusmão, da escritora e jornalista recifense, radicada nos Estados Unidos, Martha Batalha.
Lançada no ano de 2016, a obra que completa 10 anos em 2026, assim como sua personagem central Eurídice, percorreu uma estrada pedregosa para a sua não invisibilização. No primeiro momento, autora e obra ficaram conhecidos internacionalmente. Falta de visão das editoras brasileiras? Não valorização das nossas escritoras?
Em 2016, a revista Época publicou a seguinte reportagem: “Editoras estrangeiras ajudam autora brasileira na batalha contra a invisibilidade”. Ou seja, o romance A vida invisível de Eurídice Gusmão foi vendido para dez outros países e para o cinema internacional para depois ser publicado no seu próprio país (editora Companhia das Letras).
A agente literária de Martha Batalha, Luciana Villa-Boas, apresentou A vida invisível de Eurídice Gusmão as editoras brasileiras, dentre elas: Globo Livros, Record, Intrínseca, L&PM e Companhia das Letras. Todas rejeitaram. Luciana então levou a obra para “Feira do Livro de Frankfurt”, na Alemanha, e todos se apaixonaram por criadora/criatura – Martha Batalha/Eurídice Gusmão.
A primeira editora a comprar os direitos da obra foi Sührkamp, que inclusive pagou um valor acima do mercado para evitar que o livro fosse leiloado. A editora da Sührkamp – Sabine Erbric – enviou um e-mail para a autora dizendo: “Há muito tempo não víamos um livro de autor iniciante tão forte”. Outros e-mails chegaram de outras partes do mundo como Portugal, Itália, Holanda, França, Espanha, Noruega etc. Depois de todo esse percurso literário, Luciana Villa-Boas afirmou à Martha Batalha: “Não sei de outro caso de livro inédito em seu país que tenha sido contratado por uma editora de primeira linha no exterior”, ou seja, Eurídice Gusmão não era mais invisível.
Pensando nesta trajetória, eu Luciana Bessa, na Biblioteca do CCBNB em JN, pedi licença ao público (amigos queridos) para contar a história de Eurídice Gusmão. Mais do que isso: clamei para que fossem rede de apoio de outras mulheres que são constantemente caladas.
A vida invisível de Eurídice Gusmão é, na verdade, uma panorama de outras mulheres silenciadas, Ana Gusmão, Zélia, D. Maricotinha, Damiana, Filomena, mas segundo a narradora da obra: “Esta é a história de Eurídice Gusmão, a mulher que poderia ter sido…”.
Como não lembrar do poeta pernambucano Manuel Bandeira e do seu poema “Pneumotórax” no verso: “A vida inteira que podia ter sido e que não foi”. Para quem não lembra, o autor do Itinerário de Pasárgada (1957), recebeu o diagnóstico de Pneumonia em uma época (1904), que a doença era sinônimo de morte. Fez tratamento em vários estados brasileiros, e foi internado no sanatório de Clavadel, em Davos, na Suíça (conheceu Paul Éluard, um dos grandes nomes do Surrealismo), mas os médicos foram taxativos: “não há cura, vai morrer”. Eles tinham razão: o “São João Batista” do Modernismo morreu aos 82 anos de idade de hemorragia gástrica em decorrência de uma úlcera. No poema “Pneumotórax”, o sujeito lírico lamenta o fato de ter desperdiçado muitos anos da sua vida (Bandeira não casou e não teve filhos com receio de deixá-los sozinhos).
Diferentemente de Manuel Bandeira, que publicou 10 obras em versos, 18 em prosa, além das coautorias e as traduções que incluem Sóror Juana Inés de la Cruz, Friedrich Schiller, José Zorrilla, Bertolt Brecht etc, Eurídice Gusmão teve seus três projetos invisibilizados por aqueles que estavam ao seu redor.
No primeiro projeto, Eurídice pediu a opinião do marido, Antenor Campelo, sobre a possibilidade de publicar um livro de receitas, ao que ele respondeu: “Deixe de besteiras, mulher. Quem compraria um livro feito por uma dona de casa?”. No segundo, Eurídice decidiu que costuraria depois de ver o passo a passo da confeção de um vestido detalhado em 23 peças no Jornal das Moças. Pediu uma máquina de costura ao Antenor. Ele negou três vezes. Na quarta, disse: “Se é para eu voltar a ter paz nesta casa, compre logo essa máquina, mulher”. Quando descobriu que a esposa estava costurando para fora, gritou: “Que bagunça é essa na minha sala?” Só não jogou a máquina Singer pela janela porque estava preocupado com que os outros iam dizer. A máquina não foi arremessada, mas os vizinhos tiveram muito a dizer sobre os gritos naquela noite. Eurídice finalmente parou depois do projeto da costura. Voltou para o seu posto no sofá de frente para a estante dos livros e ficou meses a fio com o olhar perdido. Até que viu os livros e dedicou-se às páginas deles sua total atenção. Seu último projeto foi dizer à família: “Estou escrevendo um livro. É sobre a história da invisibilidade”. Depois do Golpe de 64, Eurídice escreveu mais e com mais raiva. Enviou alguns textos para o Jornal do Brasil, que nunca foram publicados. Anos depois, enviou para outro Jornal, O Pasquim, mas nunca obteve retorno. A vida seguiu e um único som permanece constante: tec, tec, tec, tec, tec…
Por não se dá por vencida, mesmo quando a vida lhe disse não, a inteligente e talentosa Eurídice Gusmão também chamou a atenção do produtor da RT Rodrigo Teixeira, com raízes tijucanas (a obra se passa no bairro da Tijuca, RJ). Comprado os direitos cinematográficos do livro, o o diretor cearense (radicado na Alemanha) Karim Ainouz – o mesmo que fez Abril despedaçado (2001), Madame Satã (2002), Praia do Futuro (2014), – foi convocado a levar Eurídice Gusmão para as telas do cinema, já que produtor e cineasta sempre discutiram “a possibilidade de fazer um filme sobre o universo feminino”.
A vida invisível chegou às telas no ano de 2019 e já foi premiado como o melhor filme internacional no Spirit Awards, considerado o Oscar das produções independentes. A película conta a história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida Gusmão (Julia Stockler), separadas pelo forte machismo do Rio de Janeiro nas décadas de 1940 e 1950. Enquanto Eurídice é sufocada pelo casamento com Antenor (Gregório Duvivier), Guida sofre as agruras de ser mãe solo. O filme retrata a tentativa de duas irmãs em se reencontrarem a si e a seus sonhos que foram atropelados pela sociedade patriarcal.
Durante a campanha de divulgação do filme, foi lançada a hashtag #InvisivelNuncaMais objetivando divulgar nomes e histórias de mulheres que realizaram grandes feitos, mas tiveram seus nomes apagados da História oficial. Por isso que:
Cada vez que lemos uma mulher
Novas perspectivas são descobertas.
Cada vez que lemos uma mulher
Damo-nos a oportunidade de escutar a história por um novo viés.
Cada vez que lemos uma mulher
Legitimamos outras vozes.
Cada vez que lemos mulheres (especialmente) nordestinas
Nós estamos contribuindo para a não invisivilização de tais escritoras.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
